terça-feira, 16 de setembro de 2008

A mulher selvagem

Como uma trilha que atravessa a floresta e vai cada vez diminuindo mais até quando parece se reduzir a nada, a teoria psicológica tradicional esgota-se rápido demais para a mulher criativa, talentosa, profunda. A psicologia tradicional é muitas vezes lacônica ou totalmente omissa quanto a questões mais profundas importantes para as mulheres: o aspecto arquetípico, o intuitivo, o sexual e cíclico, as idades das mulheres, o jeito de ser mulher, a sabedoria da mulher, seu fogo criador. Foi isso o que direcionou meu trabalho sobre o arquétipo da Mulher Selvagem durante quase duas décadas.

Chamo-a de Mulher Selvagem porque essas exatas palavras, mulher e selvagem, criam a "batida à porta da psique profunda da mulher". Significa usar palavras para obter a abertura de uma passagem. Não importa a cultura que influencia a mulher, ela compreende as palavras mulher e selvagem intuitivamente.

Quando as mulheres ouvem essas palavras, um lembrança muito antiga é acionada, voltando a ter vida. Trata-se da lembrança do nosso parentesco absoluto, inegável e irrevogável com o feminino selvagem, um relacionamento que pode ter se tornado espectral pela negligência, que pode ter sido soterrado pelo excesso de domesticação, proscrito pela cultura que nos cerca ou simplesmente não ser mais compreendido. Podemos ter-nos esquecido do seu nome, podemos não atender quando ela chama o nosso; mas na nossa medula nós a conhecemos e sentimos sua falta. Sabemos que ela nos pertence; bem como nós a ela.

Há ocasiões em que vivenciamos sua presença, mesmo que transitoriamente, e ficamos loucas de vontade de continuar. Costumamos sentir sua presença através de cenas de rara beleza, ou através dos sons, da música que faz vibrar o esterno e que anima o coração. Ela chega com o tambor, o assobio, com a palavra escrita e falada. Às vezes uma palavra, frase, poema ou história soa tão bem, que faz com que nos lembremos da substância da qual somos feitas e do lugar que é nosso verdadeiro lar.

São esses vislumbres fugazes, originados tanto da beleza quanto da perda, que nos deixam tão desoladas, tão agitadas, tão ansiosas que acabamos por seguir nossa natureza selvagem. É então que saltamos floresta adentro, em meio ao deserto ou à neve, e corremos muito, em busca de uma pista, um sinal de que ela ainda está viva, de que não perdemos nossa oportunidade. E, quando farejamos seu rastro, nada nos irá fazer parar, o mundo pode parar, mas nós não vamos mais prosseguir sem ela.

Uma vez que as mulheres a tenham perdido e a tenham recuperado, elas lutarão com garra para mantê-la, pois com ela suas vidas criativas florescem; seus relacionamentos adquirem significado, profundidade e saúde; seus ciclos de sexualidade, criatividade, trabalho e diversão são restabelecidos; elas deixam de ser alvos para as atividades predatórias dos outros.

Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas.

Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em seu sentido pejorativo de algo fora de controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis.

Quando perdemos contato com a psique instintiva, vivemos num estado de destruição parcial, e as imagens e poderes que são natura s à mulher não têm condições de pleno desenvolvimento. Quando são cortados os vínculos de uma mulher com sua fonte de origem, ela fica esterilizada, e seus instintos e ciclos naturais são perdidos, em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto ou ao ego - dela própria ou de outros.

A Mulher Selvagem é a a saúde para todas as mulheres. Sem ela, a psicologia feminina não faz sentido. Essa mulher não-domesticada é o protótipo de mulher... Não importa a cultura, a época, a política, ela é sempre a mesma, ela é o que é; e é um ser inteiro.

Por mais que seja proibida, silenciada, podada, depreciada, ela volta à superfície nas mulheres, de tal forma que mesmo a mulher mais tranquila, mais contida, guarda um canto secreto para a Mulher Selvagem. Mesmo a mulher presa com a máxima segurança reserva um lugar para o seu self selvagem, pois ela intuitivamente sabe que um dia haverá uma saída.

do livro "Mulheres que Correm com os Lobos".

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Corpo

Na psique instintiva, o corpo é considerado um sensor, uma rede de informações, um mensageiro com uma infinidade de sistemas de comunicação - sejam do sistema físico, bem como o emocional e o intuitivo. No mundo imaginário, o corpo é um veículo poderoso, um espírito que vive conosco, uma oração de vida nos seus próprios méritos.

O corpo usa sua pele, suas fáscia e sua carne mais profunda para registrar tudo que ocorre com ele. Como a Pedra de Rosetta, para aqueles que sabem decifrá-lo, o corpo é um registro vivo de vida transmitida, de vida levada, de esperança de vida e de cura. Seu valor está na sua capacidade expressiva para registrar reações imediatas, para ter sentimentos profundos, para pressentir.

O corpo é um ser multilíngue. Ele fala através da cor e da temperatura, do rubor do reconhecimento, do brilho do amor, das cinzas da dor, do calor da excitação, da frieza da falta de convicção. Ele fala através do bailado ínfimo e constante, às vezes oscilante, às vezes agitado, às vezes trêmulo. Ele fala com o salto do coração, a queda do ânimo, o vazio no centro e com a esperança que cresce.

O corpo se lembra, os ossos se lembram, as articulações se lembram. A memória se aloja em imagens e sensações nas próprias células. Como um esponja cheia de água, em qualquer lugar que a carne seja pressionada, torcida ou mesmo tocada com leveza, pode jorrar dali uma recordação.

Limitar a beleza e o valor do corpo a qualquer coisa inferior a essa magnificência é forçar o corpo a viver sem seu espírito de direito, sem sua forma legítima, seu direito ao regozijo. Ser considerado feia ou inaceitável porque nossa beleza está fora dos padrões atuais fere profundamente a alegria natural que pertence à natureza instintiva.

Extrair grande prazer de um mundo repleto de muitas espécies de beleza é uma alegria na vida à qual todas as mulheres fazem jus. Defender apenas um tipo de beleza é de certo modo não observar a natureza.

Há quem diga que a alma anima o corpo. No entanto, e se resolvêssemos imaginar por um instante que é o corpo que anima a alma, que a ajuda a se adaptar à vida concreta, que analisa e traduz, que fornece o papel em branco, a tinta e a pena com os quais a alma pode escrever nas nossas vidas? Desejamos passar a vida inteira permitindo que os outros depreciem nossos corpos, julguem-nos, considerem-nos defeituosos? Será que temos força suficiente para renegar o pensamento geral e prestar atenção, com profundidade e sinceridade, ao nosso corpo como um ente poderoso e sagrado?

A sua finalidade é a de proteger, conter, apoiar e atiçar o espírito e alma em seu interior, a de ser um repositório para as recordações, a de nos encher de sensações - ou seja, o supremo alimento da psique. É a de nos provar que existimos, que estamos aqui, para nos dar uma ligação com a terra, para nos dar volume, peso. É errado pensar no corpo como um lugar que abandonamos para alçar vôo até o espírito. O corpo é o detonador dessas experiências. Sem o corpo não haveria a sensação de entrada em algo novo, de elevação, altura, leveza. Tudo isso provém do corpo. Ele é o lançador de foguetes. Na sua cápsula, a alma espia lá fora a misteriosa noite estrelada e se deslumbra...

No corpo, não existe nada que "devesse ser" de algum jeito. A questão não está no tamanho, no formato ou na idade. A questão está em saber se este corpo sente, se ele tem um vínculo adequado com o prazer, com o coração, com a alma, com o mundo instintivo. Ele tem alegria, felicidade? Ele consegue ao seu modo se movimentar, dançar, gingar, balançar, investir? É só isso o que importa, um corpo vivo, sensível, conectado com todas as partes do ser.

adaptação do livro "Mulheres que Correm com os Lobos"

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Os crop circles


Crop circles são os desenhos geométricos que aparecem subitamente em trigais, já observados esporadicamente na Inglaterra há alguns séculos. Passaram a ter mais evidência no início do século XX, principalmente a partir dos anos 80. Após 1990 suas formas tiveram aumento em tamanho e complexidade, chegando a ter em apenas uma figura, 402 círculos e 300 m de diâmetro.

Eles passaram a se apresentar não somente em plantações, mas em gramados, flores silvestres, juncos, terra, areia, neve, gelo, solo de florestas e até no topo de árvores; sendo comum seu aparecimento próximo a antigos monumentos e estruturas neolíticas, como Stonehenge e Avebury.

É um fenômeno mundial, ocorrendo principalmente na Inglaterra e em outros países da Europa, Estados Unidos, Canadá, Autrália, Rússia, Japão, Escandinávia, Israel e partes da África. Acontecem principalmente no verão, em média de 300 por ano, e já são pelo menos 6.000 formatos já documentados.

Nos estudos científicos realizados ficou demonstrado que a composição química do solo fica alterada, como que atingida por um raio. Cristais de silício puros são encontrados nas amostras, evidenciado que houve exposição a uma grande pressão ou calor extremo.

As plantas têm suas sementes e ciclo reprodutivo alterados, passível de acontecer quando são aquecidas em alta temperatura; indicando que os desenhos aparecem em segundos, ou os campos pegariam fogo. Mas a safra não sofre danos, e a plantação continua a crescer e amadurecer normalmente.

Seus desenhos baseiam-se na geometria sagrada e euclidiana, na matemática superior e em símbolos sagrados, combinando estes elementos de forma absolutamente incrível. São como códigos de conhecimento que unem simbologia espiritual e sagrada à física moderna. Sua mensagem não é de fácil compreensão, mas pode ser entendida por pessoas de origens e conhecimentos diferentes, demonstrando seu caráter universal. É comum encontrarmos nestes desenhos padrões derivados da Flor da Vida, sólidos platônicos e espirais.

Ao observá-los, ficamos encantados com sua beleza, mas além disso elas irradiam energias de harmonia e amor, e têm um poder transformador. Não sabemos sobre sua origem e sobre as inteligências que as criam, mas podemos perceber que estas fontes de amor e sabedoria desejam contactar conosco, abrir nossas mentes e corações para os mistérios e belezas do universo, e nos proporcionar as chaves para a compreensão do mundo que habitamos.

É bem verdade que já existem crop circles feitos por humanos, em geral com finalidade comercial. Embora também possam possuir grande perfeição geométrica, não são capazes de reproduzir os efeitos biológicos como os que surgem em acontecimentos misteriosos. Como eles surgem durante a madrugada, pesquisadores e curiosos ficam de plantão à noite em áreas de grande incidência de crop circles , mas tudo o que conseguem observar, se tiverem sorte, é o surgimento de luzes inexplicáveis no céu.
adaptação da revista "Trigueirinho"

Mitos e arquétipos


O estudo moderno de nossas escolas suprimiu o conhecimento da literatura grega e latina, bem como o estudo da Bíblia. A necessidade de nos adaptarmos a uma sociedade industrializada e de consumo pede que o ensino se restrinja ao necessário, voltado principalmente para a área tecnicista. A cadeira de Filosofia é vista com desconfiança e displicência por muitos alunos e colégios.

Perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada para por no lugar. As lendas, mitos e histórias provenientes do passado sempre deram sustentação à vida humana, ao pensamento que edificou civilizações e formou religiões através dos séculos; pois estes temas têm a ver com o que existe de mais grandioso na história da humanidade.

Os heróis e heroínas, os deuses e deusas, os homens e mulheres santificados traçam a trajetória humana, com seus desafios e dilemas interiores, nos mistérios com que a vida nos incita em nossa travessia. Sem estes sinais presentes nos antigos escritos temos que produzi-los por conta própria.

Aquilo que os seres humanos tem em comum se revela nos mitos. São histórias de nossa vida, de nossa busca pela verdade, da busca do sentido de vivermos. Mitos são pistas para as potencialidades espirituais, daquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente.

Hoje estamos empenhados em realizar feitos de objetivos materiais, de valor linear, que passam longe da vibração da vida. Nos esquecemos que o valor genuíno da vida é muito mais abrangente, e que demanda uma profunda viagem interior, rumo aos nossos mais profundos anseios e seus desafios.

Como trilhar um caminho diferente deste, que nos faz pessoas amorfas, preocupadas com a imagem exterior, com o valor das conquista materiais, que nos afasta de nosso universo interior de plenitude e harmonia?

Dentro de cada um houve e há uma criança curiosa. Podemos resgatar nosso potencial humano se explorarmos nossa curiosidade. Lendo sobre os mitos podemos encontrar um portal interior de novas descobertas. Lendo mitos de outros povos podemos encontrar enredos universais.

Nosso modo de vida, a Igreja e as demais religiões fizeram a separação entre matéria e espírito, entre a graça natural e a graça sobrenatural. Perdemos o sentido da transcendência, nossa natureza foi castrada, e assim nos afastamos da autenticidade da vida.

Os antigos rituais e cerimônias de iniciação têm sua base na mitologia dos povos, buscam delimitar etapas e preparar o iniciado para um novo desafio em sua vida, onde ele há de buscar coragem, humildade e fé interiores para prosseguir.
A busca da verdade essencial, no homem inteiro, holístico, moldou a herança mitológica, mesmo que permeada da imperfeição humana. É uma grande proeza, um ato heróico, o homem seguir seu verdadeiro destino, o dharma como chamam os hindus.

Somente os homens e mulheres que perseguem seu mais íntimo anseio ultrapassam seu pequeno ego, entram em uma nova dimensão da vida, presidida pelo Self, o eu interior, a integridade de si mesmo.

Ou seremos robôs, burocratas, escravos da vida exterior, sem sentido profundo para nossos dias. Um vazio interior revestido por bela casca, por realizações que o tempo tratará de destruir.

É preciso caminhar por onde nossa alma deseja, mesmo que diante da incompreensão humana. O heroísmo, a graça, a iluminação, a plena realização não pertencem somente aos seres mitológicos e bíblicos, são o destino de todos nós da raça humana.

Os mitos estimulam a tomada de consciência de nossa força interior. Quando menino você encara de um modo, com o tempo os mitos lhes dizem muito mais. Os mitos fazem parte do inconsciente coletivo, são infinitos em suas revelações, e presentes em muitos de nossos sonhos.


em "O Poder dos Mitos" de Joseph Campbell
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