sábado, 18 de outubro de 2008

Jean-Yves Leloup, morte e vida


Ainda jovem Jean-Yves havia se tornado um andarilho à procura de uma espiritualidade que desse sentido e razão à vida, da qual já não tinha mais apego. Foi para a Índia, e sem saber mais como, vivendo e andando à esmo, foi parar na Turquia. Em Istambul caiu gravemente doente, disseram que foi envenenamento, ou de certo por que mal comia, e o que comia eram os restos que catava na feira, e a água que bebia era muitas vezes suja e contaminada.

Encontraram-no na rua, inconsciente. Vendo-o um estrangeiro, mesmo que sem nenhum documento, levaram-no para um hospital onde trabalhavam médicos e enfermeiros franceses. O eletroencefalograma e os exames de rotina diagnosticaram-no morto, e assim ele foi para uma câmara fria aguardar o momento do enterro.

Tudo o que se lembra é de um vazio, um nada, mas num estado de plenitude que nunca mais conheceu igual. Em outro espaço/tempo que este que conhecemos, ele se recorda que desejara por todos os meios morrer, escapar da vida sem sentido que vivia, mas nesta hora em que ela - a morte - chegava, ele disse "não". Não, com todas as forças possíveis de seu corpo, de seu psiquismo. E cheio de medo, mais sofria. Mas diante da dor intolerável, da negação impossível, ele desistiu de lutar, e consentiu, e aceitou morrer.

No instante do sim, a dor o deixou, e sentiu-se leve. Como um pássaro em uma gaiola que abre suas asas para alçar o vôo. A consciência viva, luminosa, percebendo-se dentro e fora do corpo. E o pássaro alça seu vôo, liberta-se de sua gaiola, e alma de seu corpo...

E depois? Foi como o vôo saindo da ave, o vôo livre se unindo ao espaço... Não havia mais consciência de coisa alguma. Um "nada" que continha o vôo, o pássaro e a gaiola. A vastidão que abrangia a consciência, a alma, o corpo...

Isso é tudo que ele pode dizer que se passou, neste tempo - ou fora deste -, em que preparavam seu enterro. Então alguém gritou: "Ele não está morto!", e vieram os procedimentos desagradáveis, tubos, soros, injeções para reanimá-lo. O vôo desceu ao pássaro, o pássaro a sua gaiola, e ele voltou a gemer.

Rapidamente se recuperou, e quando lhe perguntaram quem pagaria a conta, e se ele tinha família e de onde vinha, ele fez-se de mudo. Por fim lhe mostraram o caminho da rua, e ele viu-se de novo no calor de Istambul.

Seus passos o conduziram à Mesquita Azul, e na luz azul que descia dos vitrais da cúpula ele podia sentir o vôo do pássaro, e disse a si mesmo: "É aqui a casa de Deus." Do outro lado da rua entrou na basílica de Santa Sofia, aviltada por séculos de mutilações, transformações, incêndios e reconstruções. Já ia sair quando deparou-se com um mosaico do Cristo, em seus olhos ele reconheceu novamente o pássaro e seu vôo, estava mais uma vez livre.

Em busca de mais informações sobre os mosaicos, mandaram-no ir ao patriarcado de Constantinopla. Lá ele encontrou um belo ancião tranquilamente recitando seu terço. Este parecia lhe aguardar, imediatamente dirigiu-se a Jean-Yves. Levou-o ao interior da igreja, diante de um ícone de Cristo, muito parecido com o mosaico. Rodeando o rosto do Cristo estavam escritas em grego: O hon.

_O que quer dizer?

_"Aquele que É" _ respondeu o ancião. O "Eu Sou", o nome de Deus. Jesus retomou este nome santo.

O "Eu Sou" tocou seu coração em cheio, Jean-Yves desmaiou. Reanimado ele pode falar com o ancião, e este lhe disse:

_ "Aquele que É" pode receber um corpo, pode ter um rosto, o ilimitado pode se manifestar em um forma, o infinito no finito, o incriado no criado. Deus e o homem não estão separados, você pode acreditar, está escrito.
Neste momento nasceu um novo homem, um peregrino nas muitas religiões, filosofias e conhecimentos, trazidas em suas palavras poéticas e profundas a confirmar a verdade que ele conheceu diante da morte: o Eu Sou.
adaptação do livro de Jean-Yves: O Absurdo e a Graça
Diante do olhar azul e amoroso de Jean-Yves, distribuído em profusão as centenas de pessoas que assistem sua missa campal, é possível contemplar o céu. Mas além deste céu é possível sentir o chamado do Cristo, estremecer diante deste olhar doce e verdadeiro, até que as lágrimas embotem nossos olhos, e tudo que temos então é um chamado: Eu Sou.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A crise e o crescimento espiritual


A manifestação humana permite que focalizemos nossos defeitos e imperfeições de um modo que não é possível em outras formas ou níveis de ser. No estado unificado de consciência, além da forma humana, sabemos que nossos defeitos são apenas partículas de poeira no luminoso manto do Ser. Somente na vida humana é que nossos defeitos assumem dimensões suficientemente grandes para poderem ser examinados e totalmente transformados. Precisamos enfocar nossas dificuldades e limitações, vê-las em pessoa, por assim dizer, para que elas recebam toda a nossa atenção e sejam bem recebidas na volta ao ser total.

Optamos por encarnar para conhecer intimamente a nossa condição humana. A tarefa de transformação é continuar optando por encarnar mais e mais partes de nós mesmos, expandir o que significa ser humano, corrigir os defeitos pela base. Enquanto estamos na forma humana podemos ativar tanto a natureza superior como a inferior. Os aspectos mais desenvolvidos têm as condições e o instrumental necessários para explorar e fazer aflorar os outros aspectos menos desenvolvidos, que por enquanto ainda não se manifestaram, e unir-se a eles.

O aspecto negativo encontrado dentro do eu pode ser acolhido, perdoado e libertado. A vitalidade essencial da energia negativa pode ser resgatada e integrada à consciência. Todo defeito reconhecido, toda defesa desmantelada e toda dor sentida e liberada dão poderosas reservas novas para criar uma vida voltada para novas direções positivas. Por outro lado, toda atitude negativa inconsciente, toda defesa mantida, toda dor negada tolhem a energia vital e limitam a consciência.
O crescimento espiritual exige que encaremos nosso lado negativo. Cada vez que adiamos este confronto, a manifestação da crise e das dificuldades na vida exterior aumenta.
A crise é uma tentativa da natureza - da legitimidade natural e cósmica do universo - de efetuar a mudança. Qualquer tipo de crise é uma tentativa de desintegrar as antigas estruturas de equilíbrio que se baseiam em falsas conclusões e no negativismo. Ela abala os modos de vida arraigados e estacionados para tornar possível o surgimento do novo. Ela dilacera e dissolve, o que é momentaneamente doloroso, porém sem isso a transformação é inconcebível.
A crise ajuda a deitar abaixo o antigo e criar espaço para o novo. Na verdade ela pode ser uma etapa do crescimento quando permitimos que suas lições e a turbulência que acarreta em nossa vida revele níveis mais profundos de distorções ocultas que demandam atenção e transformação.
O crescimento espiritual - o crescimento rumo à unificação de todos os nossos aspectos desarmônicos - não é apenas uma exigência premente no nosso atual estágio de evolução. O crescimento espiritual é o sentido e o propósito da vida humana sobre a Terra. A condição humana é um estado de evolução acelerada, de constante vir a ser, seres dotados de espírito e matéria, de autopercepção parcial e não completa, presos na incompletude inquieta e na divisão interior. Estamos em estado de desequilíbrio em busca do equilíbrio, de desunião e dualidade em evolução para a unidade.
A vida, o prazer, a unidade consigo mesmo e com os outros são as metas do plano cósmico de evolução.
do livro: "O Eu Sem Defesas"
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