segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O sonho e o sonhador, criando nossa realidade

No filme "A Origem", o personagem de Leonardo de Capri tem a habilidade especial de criar o arcabouço de um sonho, e levar para lá, como em uma armadilha, pessoas de quem queira descobrir segredos ou a quem deseje inserir idéias. Tudo corria bem em sua estratégia, até que seu inconsciente passou a projetar no sonho armadilhas capazes de sabotar seus planos. Mas a vida e o sonho se confundem e já não sabemos o que é o sonho arquitetado pela mente e o que é realidade.

A idéia é antiga, os hindus já chamavam nossa realidade de "Lila", o brinquedo ou o sonho de Deus, sonho que sonhamos juntos, no qual projetamos nossas angústias e crenças. Enquanto sonhamos nossa realidade estamos envoltos nos véus de "Maya", a ilusão, até o dia em que despertemos de nosso sonho para a verdadeira vida ou realidade, "atman" a alma imorredoura. Viver é sonhar presos à rodas das encarnações, "Samsara", acordar é iluminar-se e se desprender da necessidade de novas voltas neste mundo de sonho e ilusões.

O filme vem relembrar a interpretação hindu, onde nossa vida é um sonho arquitetado pela mente divina e por nós próprios, afinal somos criadores como o Criador. E o que criamos em nossa vida? Nossa realidade é a projeção de nosso universo interior, recriamos no exterior nossas crenças e medos inconscientes. Assim se temos medo de sermos abandonados, criamos a experiência do abandono; se tememos a traição, é esta experiência que criamos; se cremos que o mundo é hostil e inseguro, é assim que nos sentiremos em muitas experiências; se cremos que as pessoas são imprestáveis, não encontraremos nenhum valor nelas. E assim sucessivamente, o mundo que vemos e experimentamos negativamente, o vemos através de óculos de lentes distorcidas e sujas.

É fácil comprovar isso: irmãos crescem em uma mesma família e tem a mesma criação, um deles relata uma infância dura e carente, e vê a vida com grande amargor; o outro relata experiências maravilhosas de amor e ternura, mesmo que na pobreza, e é capaz de ver a vida com grande alegria e entusiasmo. Estas crenças que trazemos não são produzidas em uma única vida, já as trazemos como um pacote, nosso hardware, de vida para vida.

De outra forma podemos observar que uma mesma experiência é para nós entendida de um determinado jeito, e mesmo que dolorosa trata-se de uma experiência de grande aprendizado que nos torna melhor e mais capazes. A mesma experiência para uma outra pessoa é motivo de intenso sofrimento e lhe traz a sensação de ter vivido uma grande injustiça.

Quanto mais conscientes nos tornamos da impermanência desta existência, e mais profundos nos tornamos em nossa realidade interior, mais serenos nos encontramos diante das vicissitudes da vida. Encaramos as experiências como aprendizado de amor e paz. Nos tornamos reflexivos e cada vez menos projetamos limitações e sofrimentos em nossa vida. Neste caso estamos limpando e corrigindo as lentes com que vemos o mundo, ele se torna menos hostil e cada vez mais belo e perfeito, mesmo em suas imperfeições.

Quanto mais presos nos achamos à vida material, mais sofremos com os infortúnios e mais projeções dolorosas criamos na vida. Cada uma destas projeções é na verdade uma oportunidade de libertação, se pudermos levantar os véus da ilusão que vivemos.

Podemos dizer que através do passado e do presente momento, estamos criando o caminho por onde vamos passar. Existem sempre escolhas a serem feitas nesta caminho, e estas escolhas tornam a construir o caminho por onde iremos passar a seguir. Somos os criadores de nossa realidade, criamos todas as experiências de que necessitamos em nosso crescimento, a vida de cada um é perfeita no sentido de que traz a cada um exatamente o que precisa e escolheu.

Enquanto caminhamos inconscientemente sentimos que a vida acontece a nossa revelia, mas quando nos tornamos conscientes deste processo nos sentimos realmente responsáveis por nossa vida, e passamos a escolher os passos com mais sabedoria e a aceitar tudo que já criamos até este momento.

Nossas projeções acabam por envolver outras pessoas, assim uma pessoa carente atrai uma pessoa que tem medo de ser traída. A carente não se sente amada e de alguma forma a outra pessoa se sente traída por ela. Assim ambas as projeções se fortalecem uma na outra, como também oferecem mais uma oportunidade de cura.

Desta forma concluímos afortunadamente que ninguém faz mal, maltrata, abandona, rejeita ou trái a outra pessoa; ela apenas realiza em nossa vida a infelicidade que inconscientemente desejamos. Enfim, envolvemos a outra pessoa em nosso sonho e ilusões e projetamos sobre ela nossas crenças e medos. Já não precisamos perdoá-la, mais justo seria dizer: "Sinto muito por tê-lo envolvido em minhas projeções errôneas! Você e eu estamos liberados, eu me perdôo por meu engano!"

É claro que esta é uma abordagem muito diferente de ver as relações e situações no mundo. Não estamos acostumados a ver o mundo assim, mas da velha maneira em que existem culpados e vítimas por toda parte. Mas eu prefiro me sentir responsável, responsável por minha vida e relações, por tudo que crio no mundo. Isto é realmente libertador.

Ana Liliam

Um comentário:

Katia disse...

Olá Ana,
Que texto maravilhoso! Eu não tinha lido ele antes, adorei. Hoje minha irmã de Brasília está me visitando aqui em SP, já contei pra ela sobre o seu trabalho, pode ser que um dia desses ela te procure pra marcar algo, um curso, sei lá. Beijos, muita luz!

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