sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Relacionamentos são o reino da iluminação

Jeff Wilson. Buddhism of the heart.

Eu achava que o despertar seria alcançado pelo controle ativo da mente e que existiam duas categorias na minha vida: “as coisas budistas” (meditação, estudar o darma, conversar com os mestres etc) e “as coisas não budistas” (sair com os amigos, visitar minha família, assistir TV, tomar sorvete, deitar no sofá sem fazer nada, deixar minha mente divagar etc) que eram improdutivas e, de uma forma nebulosa, aumentavam meu sofrimento pelo apego às coisas “mundanas”. Tentei duramente ser um “Budista perfeito” deixando as amizades de lado em favor da quietude para auto-reflexão, me distanciando da minha família e desdenhando atividades culturais como distrações.

Logo percebi que não se tratava disso. Não havia maneira de me separar do mundo, porque estou irremediavelmente ligado a ele e uma parte de mim fundamentalmente não quer viver no topo de uma montanha para sempre. Simplesmente não sou um sábio, não interessa o quanto dê duro para me tornar um.
Deixar o apego às coisas “budistas” era muito difícil. Imaginava se perderia meu tempo perseguindo um objetivo impossível ou, ao contrário, perderia todo tempo e esforço que pus no caminho da iluminação se retornasse ao padrão normal de vida. Estaria sucumbindo às minhas paixões ilusórias, ou se não conseguia demarcar o bom do mal na minha vida, o religioso do mundano, como eu poderia traçar um caminho para a verdadeira paz da mente?

Entretanto deixei ir alguns apegos religiosos. Felizmente aprendi muitas lições, ao desistir da idéia de que deveria seguir o caminho bom e limitado. Tenho a certeza de que um despertar que não consiga lidar com o mundo real é muito limitado. O darmakaya, a interdependência última de todas as coisas, a percepção do que é equacionado com a iluminação na visão mahayana, inclui o sagrado e o profano, o monastério e as séries de TV, ex-namoradas, encontros casuais, engarrafamentos e dias chuvosos colocados juntos. Ademais, como verdadeiro despertar não incluiria 99% da vida? No budismo acreditamos que a verdadeira sabedoria é compaixão e a perfeita compaixão é a realização da perfeita sabedoria. Onde nós podemos ser compassivos, a não ser no aqui e agora, nos relacionamentos com outras pessoas?

Antes pensava nos relacionamentos como obstáculos que me afastavam do trabalho duro necessário para alcançar o insight. Agora minha atitude é completamente diferente. Não acho que meus relacionamentos sejam amarras. Na verdade, não acredito que consiga experimentar qualquer experiência do despertar sem eles. Cheguei à conclusão de que os relacionamentos são as grandes oportunidades de lição e constituem o verdadeiro movimento em direção à paz, compaixão e sabedoria, como verdadeiro despertar e realização budista.

O budismo trata de conhecer o eu – não o eu pequeno, o ego atado ao “mim, meu e eu “, mas o eu grande, o eu verdadeiro, que inclui tudo em perfeita interpenetração, sem nenhum tipo de obstáculo. Para mim, esses relacionamentos humanos são uma parte importante desse self que inclui todas as minhas amizades, relações amorosas, transações de negócio, impacto ambiental, consumo de comida, serviços criados por trabalhos de outras pessoas, dezenas de completos estranhos com os quais, a cada manhã, eu compartilho dióxido de carbono no metrô. Eles também são parte desse todo que me compreende, assim como me deparo, embora de uma forma restrita, com a existência de todos e de tudo que existe. Sinto que à medida que reconheço essa vasta, impessoal (e ainda assim, de alguma forma íntima) rede de relacionamentos cármicos, pelo que ela é, aprendo a trabalhar compassivamente por todos os seres e coisas, com gentileza e humildade. Então me aproximo da iluminação de uma forma que um tolo como eu nunca poderia imaginar.

A meditação, canto, leitura de sutras: tudo isso é importante sob as circunstâncias corretas. Mas acho que há mais budismo, ao abraçar minha esposa quando ela retorna de um longo dia de trabalho, quando dou um dólar a uma mulher sem-teto na esquina, quando espero todo mundo sair do trem antes de entrar. Há mais budismo quando vejo Buda em todos e reconheço esses relacionamentos, importantes e secundários, como aspectos do darmakaya, marcados pelos sunyata ( vazio) e por isso parte do fluxo da forma da vacuidade.
Acho muito fácil, de certa forma, cantar sutras e me colocar no caminho para ser um “bom” budista. E é por isso que penso que não há uma iluminação real aí. Mas ainda luto para não xingar a mulher gorda que anda muito lentamente nas escadas a minha frente e as pessoas do telemarketing que me incomodam a cada noite. Mas sei que esses são os lugares reais para a aplicação do darma, os nós genuínos da rede de Indra que eu tenho de trabalhar para amaciar. Não aprendo quando raspo minha cabeça ou renuncio aos meus amigos e minha família. Aprendo quando aceito minha vida e eu mesmo como eu sou, descobrindo como deixar a visão do darma transformar meus pensamentos a cada dia.

Indra


Um texto antigo chamado Avatamsaka Sutra descreve o universo como uma rede infinita gerada pelo desejo de Indra, uma divindade hindu. Em cada conexão dessa rede infinita há uma jóia maravilhosamente polida e infinitamente facetada, que reflete, em cada uma de suas facetas, todas as facetas de todas as outras jóias da rede. Uma vez que a própria rede, o número de jóias e o número de facetas de cada jóia são infinitos, o número de reflexões também é infinito. Quando qualquer jóia nessa rede infinita é alterada de qualquer forma, todas as outras jóias na rede também mudam.

A história da rede de Indra é uma explicação poética para as conexões algumas vezes misteriosas que observamos entre eventos aparentemente não-relacionados. [...] À primeira vista, experimentos envolvendo partículas subatômicas conduzidos ao longo de algumas décadas sugerem que tudo o que foi conectado em um momento retém essa conexão para sempre. (Yongey Mingyur Rinpoche, em "A Alegria de Viver")


enviado por Francisco Ulisses

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