quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Livro ‘Palavras de Poder’, de Lauro Henriques Jr.


Abaixo, você confere um dos capítulos do livro ‘Palavras de Poder’, de Lauro Henriques Jr. Neste e no segundo volume, o autor entrevista nomes de peso do autoconhecimento e da espiritualidade. No caso abaixo, entrevista com a Monja Coen.

Na sabedoria popular, encontramos a história de dois irmãos que, após décadas de vida harmoniosa em fazendas vizinhas, brigaram feio. Tudo por um simples mal-entendido que culminou em discussões violentas e no rompimento da relação. Meses depois, numa manhã, o mais velho recebeu a visita de um carpinteiro atrás de trabalho. Era a chance de se vingar. Ele disse: “Vê a fazenda do outro lado do riacho? É de meu irmão, e hoje somos inimigos. Pegue esta pilha de madeira e construa uma cerca imensa, para que eu nunca mais veja a casa dele”. Tendo entendido o caso, o carpinteiro se pôs a trabalhar, e o fazendeiro foi até a cidade. Já era quase noite quando o patrão voltou e, perplexo, viu a cena inacreditável: em vez da cerca, o carpinteiro havia construído uma ponte ligando as duas margens do rio. O homem ficou indignado, mas, pela estrutura, já vinha seu irmão, emocionado com o gesto pacificador, e os dois se abraçaram no meio da ponte. O construtor, então, começou a partir. “Espere, fique”, pediu o fazendeiro. E o carpinteiro disse: “Eu adoraria, mas tenho muitas pontes para construir”.

Essa mesma tarefa foi abraçada por Cláudia Dias Batista de Souza, a Monja Coen. Liderança mais conhecida do budismo no país hoje, ela foi ordenada monja em 1983, deixando para trás uma vida agitada, em que trabalhou como jornalista e se envolveu em atividades políticas e da contracultura. A virada se deu em 1978, ao conhecer o zen-budismo quando vivia nos EUA. Após a ordenação, passou 12 anos em mosteiros no Japão, antes de voltar ao Brasil. Aqui, em 1997, foi a primeira pessoa de origem não japonesa, e mulher, a presidir a Federação das Seitas Budistas do Brasil e, em 2001, fundou a Comunidade Zen Budista, em São Paulo. Aos 63 anos, segue manifestando a essência de seu nome de batismo religioso. O termo Coen é composto de dois caracteres chineses: co, que significa “só”; e en, que pode ser traduzido por “algo completo”. Ou seja, a Monja Coen é alguém que vive “só e completa”. Com um detalhe: estar plena consigo mesma não a impede de, dia a dia, se dedicar ao próximo. “Temos que nos tornar uma ponte que auxilia os outros em sua travessia do mar de sofrimento para o espaço de comunhão e compreensão superior”, diz.

PARA COMEÇARMOS COM CALMA E TRANQUILIDADE, NO LIVRO FACES OCULTAS, O PINTOR SALVADOR DALÍ CITA A INSTRUÇÃO QUE O SOBERANO ESPANHOL FILIPE II COSTUMAVA DAR AO CRIADO NA VÉSPERA DE EVENTOS IMPORTANTES: “VISTA-ME DEVAGAR, POIS ESTOU COM MUITA PRESSA”. O QUE A SENHORA ACHA DISSO?

Bonito, e verdadeiro. Só quando estamos realmente presentes ao que fazemos – que é o significado desse “vista-me devagar” –, é que podemos ser mais eficazes. Se a mente está atribulada, pensando nisso ou naquilo, nossa atenção fica bipartida, não nos concentramos, e, com isso, a ação acaba sendo malfeita. E, se é malfeita, precisará ser refeita, tomando mais tempo ainda. Ou seja, é preciso reduzir essa correria do pensamento, trazendo a atenção absoluta para o momento. Com isso, trabalho com rapidez, me movo com rapidez, mas meu coração e minha mente estão em paz. Essa é a proposta do zen, o treino da presença absoluta.

MUITAS PESSOAS VIVEM HOJE EM MEIO À CORRERIA DOS GRANDES CENTROS URBANOS, ENVOLTAS COM AS QUESTÕES DE TRÂNSITO, DE EXIGÊNCIAS NO TRABALHO, ETC. NESSE SENTIDO, COMO TREINAR A PRESENÇA EM MEIO A ESSE CAOS DA CIDADE GRANDE?

Pode soar como um paradoxo, mas as grandes cidades são espaços maravilhosos para o aprendizado da presença, da paciência, pois o treinamento é incessante. Somos instigados o tempo todo por situações que exigem nosso retorno ao eixo de equilíbrio. Caso contrário, entramos na confusão, na briga, no desacato. Uma coisa importante é exercitar o olhar, a observação. No trânsito, por exemplo, em vez de ficar ansiosa por ter que chegar a tal lugar, em tal horário, percebo que o próprio caminho pode ser belíssimo. É algo que minha superiora no Japão sempre repetia: “Aprecie o caminho”. Em outras palavras, não brigue com a realidade, querendo mudar as circunstâncias – saiba adequar-se a elas. E vamos com calma, observando, pois o que importa é o que está aqui, afinal, nem sei se vou chegar lá.

AGORA, TER CALMA NÃO QUER DIZER SER UM “MOSCA-MORTA”, NÃO É? PERGUNTO ISSO PORQUE, MUITAS VEZES, A PALAVRA ZEN É USADA PEJORATIVAMENTE PARA DIZER QUE ALGUÉM É MUITO PASSIVO, QUE NÃO FAZ NADA.

Com certeza. A busca da paz interior não tem nada a ver com a apatia diante da realidade; pelo contrário, nós estamos interconectados a tudo o que existe. E há uma necessidade efetiva de atuação de cada um, pois a transformação não é pessoal, mas coletiva. Essa ideia de que alguém pode se isolar, ficar meditando, que o mundo não lhe diz respeito, é falsa. Mesmo que a meditação exija um isolamento momentâneo, sua função é nos tornar conscientes de que estamos interligados com o todo, para que daí venha a ação adequada. E a ação adequada sempre é a ação amorosa, que transforma a realidade, pois tudo o que acontece no mundo tem a ver comigo. A questão do meio ambiente, por exemplo. É essencial que cada pessoa se perceba como a manifestação da vida na Terra. A Terra é o nosso corpo comum. O corpo físico não vive sem todos os elementos que constituem o grande corpo da Terra. Se não cuidar do que está à sua volta, você, no fundo, não está cuidando de si mesmo.

EM RELAÇÃO A ISSO, NO BUDISMO CONTA-SE QUE, NO MOMENTO DE SUA ILUMINAÇÃO, BUDA TERIA EXCLAMADO: “EU E TODOS OS SERES DO CÉU E DA TERRA, SIMULTANEAMENTE, NOS TORNAMOS O CAMINHO”. O QUE ELE QUIS DIZER AO USAR A PALAVRA “SIMULTANEAMENTE”?
É a consciência de que o caminho iluminado é o caminho da não separação. A experiência vivida por todos os grandes místicos é esta consciência da não separação, de que estamos todos interligados. Essa é a percepção que faz de alguém um Buda, um ser iluminado. Quando se percebe isso, nossa capacidade de relacionamento muda na hora. Em vez de ver o outro como algo externo, como um inimigo, começamos a nos perguntar: “Por que não me relaciono bem com esta pessoa? Como posso melhorar isso? Qual é a verdadeira necessidade deste ser? Qual é a minha verdadeira necessidade?”. Sabe por que Sidarta Gautama se torna o Buda? Porque ele não briga mais, não tem necessidade de provar que está com a razão. Certo dia, um sábio foi até ele e disse: “Eu vim discutir a verdade com o senhor”. E Buda respondeu: “Que bom, então não haverá discussão”. É óbvio. Se vamos falar da verdade, como pode haver discussão? Se não sou separado do outro, como posso discutir com ele? Com essa compreensão, chegamos a uma acolhida verdadeira em relação às pessoas.

IMAGINO QUE ESSA ACOLHIDA SEJA NECESSÁRIA, INCLUSIVE, EM RELAÇÃO AO ESTÁGIO DE COMPREENSÃO NO QUAL CADA PESSOA SE ENCONTRA.

Sem dúvida. As pessoas estão em níveis diferentes de compreensão, e cada uma tem o seu prazo, o seu limite, a sua maturidade. É como a história de que não se deve forçar a lagarta a virar borboleta, senão
vai nascer uma borboleta toda frágil. No zen, costumamos dizer que o relacionamento do mestre com o discípulo deve ser como o da galinha com o pintinho. A galinha fica lá, chocando seu ovo e, de vez em
quando, dá uma bicada na casca para ver se já pode abrir. Enquanto o pintinho não responde com uma batidinha, a galinha não quebra a casca do ovo. O mestre age da mesma forma. Ele nunca abre a casca do discípulo antes da hora, pois é preciso que haja uma resposta de dentro. É muito importante respeitar o tempo de cada um, sem querer forçar ou exigir nada de que o outro ainda não dê conta, para que o próprio processo de crescimento espiritual não seja mais uma causa de sofrimento.

ALIÁS, UM DOS PILARES DO BUDISMO É A AFIRMAÇÃO DE BUDA DE QUE, NA VIDA, “TUDO É SOFRIMENTO”, POIS ESTARÍAMOS SEMPRE ATRÁS DE COISAS INALCANÇÁVEIS. AO MENOS À PRIMEIRA VISTA, ESSE SOFRIMENTO TEM UMA CONOTAÇÃO NEGATIVA. MAS GOSTARIA DE LEMBRAR UM POEMA DE ADÉLIA PRADO, EM QUE A DOR APARECE COM UMA FUNÇÃO POSITIVA: “DOR NÃO TEM NADA A VER COM AMARGURA./ ACHO QUE TUDO QUE ACONTECE / É FEITO PRA GENTE APRENDER CADA VEZ MAIS, / É PRA ENSINAR A GENTE A VIVER”. OU SEJA, EM VEZ DE “TUDO É SOFRIMENTO”, PODEMOS DIZER “TUDO É APRENDIZADO”?

Sim, podemos. Buda fala sobre a questão do sofrimento quando discorre sobre as “quatro nobres verdades” e, após analisar a natureza da dor, ensina o caminho para cessar o sofrimento. E o primeiro passo nesse caminho é a memória correta acerca do que é a realidade. Por exemplo, tinha uma música antiga que dizia: “Ame a pessoa com quem você está”. Isso é memória correta. Em vez de reclamar que as pessoas à sua volta não prestam, procure ver a realidade. Perceba que há muita beleza nessas pessoas, que elas também têm qualidades, que você pode amá-las. Assim, em vez de querer o que está distante, o inalcançável, aprecie o que acontece agora em sua vida. Com esse tipo de postura, o que era sofrimento torna-se uma oportunidade de aprendizado da vida, em vida.

NESSE PROCESSO TODO DE APRENDIZADO, TALVEZ O MAIS SOFRIDO SEJA O DA EXPERIÊNCIA DA MORTE, SOBRETUDO A DE ENTES QUERIDOS. COMO A SENHORA VÊ ISSO?

É uma experiência das mais difíceis, sem dúvida. Há pouco, perdi meu pai, que faleceu aos 94 anos, após um sofrido processo de doença. E toda a nossa família sofreu junto. Existe a dor, não há como fugir. Por mais que alguém diga: “Já sou uma pessoa consciente, iluminada, não vou sentir nada”, é mentira, é falso. Não há como ficar indiferente, pois nos toca, dói. Agora, ao mesmo tempo, é essencial não se apegar a essa dor – não se apegar à pessoa que parte nem à dor que fica.Da mesma forma, quem parte não deve se apegar ao que deixa para trás, aos limites do corpo. Embora seja fundamental cuidar do corpo, pois ele é a vida que está em nós, quando chega a hora de morrer, é preciso deixar que esse corpo se feche em harmonia. De novo, isso não é fácil, dói, mas temos que nos preparar. É algo que insistimos no zen. Todas as noites, após a última meditação antes de dormir, lemos este texto: “Vida e morte são de suprema importância, o tempo rapidamente se esvai, e a oportunidade se perde. Cada um deve esforçar-se por acordar, despertar. Cuidado, não desperdice esta vida”. Ou seja, é nesta vida, e não em outra, que temos a grande responsabilidade de atingir a iluminação, a sabedoria suprema, que se manifesta em compaixão, cuidado, ternura, alegria.

EM RELAÇÃO A ISSO, NUM TRECHO DO LIVRO PORTA PARA O INFINITO, DO CARLOS CASTANEDA, O MESTRE DOM JUAN ENSINA QUE “HÁ MUITOS MEIOS DE DIZER ADEUS, O MELHOR MEIO TALVEZ SEJA CONSERVANDO UMA RECORDAÇÃO ESPECIAL DE ALEGRIA”. ESSE RECORDAR AMOROSO, OU, COMO A SENHORA FALOU ANTES, ESSA MEMÓRIA CORRETA, SERIA UMA FORMA DE SUPERAR A DOR DA PERDA?

Quando alguém que amamos se vai, parece que um pedaço de nós morre com essa pessoa, mas, na verdade, uma parte dela também fica em nós, vive em nós. O essencial é dar vida a esta vida em nossa vida. Que qualidades tinha este ser que eu amava? Será que, em minha vida, consigo manifestar essas qualidades para os outros? Isto é muito importante: aprender a manifestar esse ser no relacionamento com os outros. Assim, a pessoa que se foi não desaparece, pois continua viva em nós. É o que sempre procuro fazer, como agora, em relação a meu pai. Em vez de ficar lamentando sua morte, tento ver de que forma posso dar vida à vida dele em minha vida. Por exemplo, dando continuidade à capacidade de cuidado que ele tinha. Assim, não há um rompimento, ele segue vivo em mim. Existe a dor? Existe. Mas cuido para que as coisas que aprendi com ele sejam vivenciadas em minha vida, e não apenas em memória. Eu me lembro dele, mas a minha lembrança é a manifestação da vida dele em mim, e não um apego ao que se foi.

QUANTO A ESSA COISA DO APEGO, NUM DOS TEXTOS ESTUDADOS NO ZEN, O MONGE DOGEN ZENJI ESCREVE: “REFLITA SOBRE SUA MENTE COMUM – COMO ESTÁ EGOISTICAMENTE APEGADA À FAMA E AO LUCRO”. E ELE CONCLUI COM UMA PERGUNTA CRUA: “VOCÊ SE ATREVE A DIZER QUE NÃO ESTÁ AGINDO DE MANEIRA EQUIVOCADA?”. FICO IMAGINANDO SE, DE FATO, UM DIA SERÁ POSSÍVEL ALGUÉM RESPONDER “SIM, ME ATREVO” A ESSA PERGUNTA…

Essa questão é fundamental, pois, de fato, estamos sempre atrás do que ele chama de fama e lucro. Isso ocorre em vários níveis. Pode ser num nível mais grandioso, em que a pessoa quer virar uma estrela da música, do cinema, do futebol; ou busca ter uma fama espiritual, ser um mestre famoso. Mas isso também pode se dar entre amigos ou dentro do próprio lar. É quando, ao se relacionar, o sujeito sempre se pergunta: “Mas o que eu ganho com isso? O que levo em troca? Será que vão me admirar?”. Tudo isso são armadilhas que nos desviam do caminho verdadeiro. O caminho do Buda é aquele em que a pessoa faz o bem e não espera retorno por isso. Como dizia minha mestra no Japão: “Temos que nos tornar uma ponte”. E que ponte é essa? É uma ponte que auxilia os outros em sua travessia do mar de sofrimento e ilusão em que estamos mergulhados para o espaço de comunhão e compreensão superior. É como ocorre com uma ponte comum. As pessoas podem passar por cima dela e dizer: “Que beleza de estrutura, muito obrigado”; ou podem cuspir e urinar nela enquanto passam. Mas nada disso importa. A ponte não deixa de ser ponte pelo fato de ser elogiada ou desprezada. Esse é o propósito que devemos ter. Eu não faço algo pelo outro porque ele vai me achar maravilhosa por isso, faço porque é bom fazer, porque é bom ajudar. E isso podemos praticar dia a dia, em cada atitude nossa.

ALIÁS, NO ZEN, ATIVIDADES CORRIQUEIRAS, COMO TRABALHAR, COMER OU MESMO CAMINHAR, SÃO USADAS COMO INSTRUMENTOS DE MEDITAÇÃO. O MESTRE INDIANO OSHO TEM ATÉ UMA FRASE SOBRE ISSO: “SÓ O QUE O ZEN PEDE É QUE VOCÊ VIVA (…) COM ESPONTANEIDADE. E AÍ O MUNDO SE TORNA SAGRADO. O GRANDE MILAGRE DO ZEN ESTÁ NA TRANSFORMAÇÃO DO MUNDANO EM SAGRADO”. COMO SE DÁ ESSA RITUALIZAÇÃO DO COTIDIANO?

Através da presença absoluta. Se você está presente, qualquer lugar se torna um local sagrado; e o que quer que você faça fica carregado de espiritualidade, se torna a coisa mais importante que existe, pois é onde está toda a sua vida naquela hora. Por exemplo, nós estamos conversando agora. Isso significa que toda a nossa vida está aqui, agora. Se algum de nós não estivesse presente, pensando no que vai fazer depois, nossa conversa perderia todo o significado, pois estaríamos em outro lugar, e não aqui. E isso vale para tudo na vida. Você não precisa colocar uma música ou sentar em determinada posição para entrar em estado meditativo. Uma simples caminhada, quando é feita com atenção, ouvindo os sons da rua, dos pássaros, se torna uma meditação. Tudo pode se encaixar nesse estado meditativo, que é um estado de atenção plena. Daí, qualquer ação é uma ação maravilhosa.

E, NISSO TUDO, ONDE ENTRA O CAMINHO DO MEIO ENSINADO NO BUDISMO?

O caminho do meio é o que nos permite seguir pela vida sem apegos e, ao mesmo tempo, sem aversões. É a consciência obtida por Buda após ter experimentado dois extremos em sua vida: a opulência de um príncipe e, depois, a renúncia radical de um asceta, que nem comia. E Buda concluiu que tanto o caminho do excesso quanto o da aversão não levam a lugar nenhum, que é preciso trilhar o caminho do meio. E que caminho é esse? É o caminho da flexibilidade. Não nego minhas necessidades, mas, ao mesmo tempo, não busco satisfazer todas elas. Meu papel é perceber qual atitude é a mais adequada a cada momento, a cada circunstância. Isso remete ao que falamos antes, sobre o quanto estamos interligados, de como é importante que cada ação nossa seja uma ação amorosa, que transforme a realidade. Há uma instrução de que gosto muito, parte das regras de São Bento, quando ele diz que é proibido resmungar, mesmo que não seja com a boca, mas só com o coração. Concordo. Afinal, para que ficar resmungando se, por meio da ternura, posso transformar a minha vida e a das pessoas com quem convivo? Diante de situações difíceis, procuro fazer algo que aprendi; eu me pergunto: “Como Buda veria essa situação?”. A resposta sempre vem sob a forma de mais amorosidade.

A SENHORA É PRIMA DE SÉRGIO DIAS E ARNALDO BAPTISTA, QUE INTEGRARAM A BANDA OS MUTANTES, AO LADO DE RITA LEE. NA MÚSICA BALADA DO LOUCO, UMA DAS MAIS BELAS DO CONJUNTO, ELES CANTAM: “DIZEM QUE SOU LOUCO POR PENSAR ASSIM / MAS LOUCO É QUEM ME DIZ, E NÃO É FELIZ (…) / EU JURO QUE É MELHOR NÃO SER O NORMAL / SE EU POSSO PENSAR QUE DEUS SOU EU”. A SENHORA CANTARIA JUNTO ESSE REFRÃO?

Cantaria, e muito! Nós somos cocriadores do mundo em que vivemos, da nossa realidade. E por que não ser feliz? Por que não optar por um estado de bem-aventurança? Mesmo em meio à dor, podemos encontrar uma grande alegria nesta experiência única que é a vida humana, com as múltiplas vivências por que passamos. O que devemos é acolher toda essa riqueza de experiências sob a ótica que você colocou antes, do aprendizado e do crescimento. Assim, em vez de resmungar pelo fato de as coisas não serem como eu gostaria que fossem, eu as acolho como são. E essa acolhida me dá uma tranquilidade e uma compreensão enormes, para que eu possa agir de forma transformadora. Às vezes, funciona, às vezes, não. Mas, quando não funciona, tentamos de novo. A ideia é esta: cair sete vezes e levantar-se oito!

MELHOR DE TRÊS: O FILÓSOFO FRIEDRICH NIETZSCHE1 DIZIA QUE UMA ESPÉCIE DE ORAÇÃO DE CADA PESSOA AO INICIAR O DIA DEVERIA SER UM PENSAMENTO DO TIPO: “HOJE VOU DAR ALEGRIA A ALGUÉM”. EM SUA OPINIÃO, QUAL DEVE SER A ORAÇÃO DE CADA PESSOA PARA COMEÇAR O DIA?

Gosto muito do estado de mente no qual me mantenho aberta ao que quer que o dia me traga, no qual vou procurar fazer o meu melhor e despertar esse melhor em cada pessoa que eu encontrar. Temos todos os ingredientes da vida à nossa disposição, não podemos desperdiçar isso, deixar para amanhã, pois não existe amanhã, existe apenas o agora. E é nesse agora que devemos ser o nosso melhor, ser capazes de servir, de ajudar, de cuidar. Assim, uma forma de oração para começar o dia é colocar-se nesse estado de abertura, em que acordo e digo: “O que quer que este novo dia me traga, vou fazer o meu melhor, de forma amorosa, atenta, a mim e ao outro. E, se eu me desviar, vou rapidamente retornar ao meu melhor, que é o sagrado em mim”.

O QUE É UMA PESSOA VIRTUOSA?

Uma pessoa virtuosa é aquela que faz o bem pelo bem. Não porque isso vá trazer algum ganho pessoal, mas porque fazer o bem é gostoso, é prazeroso, é o que dá sentido à vida. Tem uma frase do Millôr Fernandes de que gosto muito, que diz que o maior altruísta é o grande egoísta. Por quê? Porque ele percebeu que, quando faz o bem aos outros, ele mesmo fica bem. O que é verdade. Todas as ações benéficas que fazemos e que elevam as pessoas nos elevam junto. Ou seja, façamos o bem, pelo bem.

ATÉ HOJE, QUAL FOI O SEU MAIOR APRENDIZADO NA VIDA?

Às vezes, quando eu ficava triste, chorando, meu pai se aproximava e dizia: “Lave esse rosto, minha filha. Venha até a janela comigo, olhe para o céu, veja que beleza de imensidão”. Sinto que um dos maiores aprendizados que tive foi este: a consciência da imensidão da vida. Foi perceber que não podemos deixar que as situações, por mais difíceis que sejam, acabem nos limitando, definhando, mas, sim, que devemos nos perceber como parte da vida do universo, e o quanto essa vida é imensa, incessante, luminosa.

MESA-REDONDA

José Ângelo Gaiarsa pergunta: “MONJA COEN, EU A CONHECI AINDA NA ÉPOCA DE SUAS ATIVIDADES POLÍTICAS, ANTES DE SER MONJA. AO LONGO DOS ANOS, NOS VIMOS POR ACASO DUAS OU TRÊS VEZES, E VOCÊ FOI MUITO SIMPÁTICA, TEM UMA INFANTILIDADE RECONQUISTADA. ASSIM, GOSTARIA DE FAZER UMA PERGUNTA PESSOAL, QUE FAÇO COM UM SORRISO ESTAMPADO NO ROSTO: VOCÊ AINDA ME AMA?”

Profundamente, dr. Gaiarsa. O senhor é uma pessoa muito amada, que teve um papel muito importante em minha vida. O senhor é uma dessas pessoas que abrem nossos portais de percepção, que nos ajudam a sair do casulo, das ideias preconcebidas sobre isso ou aquilo, para que nos tornemos seres realmente livres. Isso eu devo ao senhor, uma liberdade de pensamento, de descoberta de mim mesma e do mundo.

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