segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Trancoso, trecho do livro Missão Terra


A senhora Mireille Junot estava recostada em uma espreguiçadeira de madeira. Vestia um bonito maiô branco de bolinhas pretas, que contrastava com a pele, que ganhara um raro bronzeado. Óculos escuros e o grande chapéu de palha lhe protegiam o rosto. Olhou de longe o marido na beira do mar e fechou os olhos para um breve cochilo.

O doutor Phillippe Junot estava com a água fresca do mar até as canelas, mãos na cintura, vestindo um grande calção listrado e um chapéu de palha comprado a um dos ambulantes na praia.

Extasiava-se com a visão do mar verde e calmo, do céu azul riscado por delicadas nuvens, do morro coberto de vegetação encimado pela cruz da igrejinha, do barquinho vermelho do pescador na curva do delicado riozinho...

Poderia-se ficar uma vida inteira a contemplar a beleza, a paz e o colorido daquele lugar. Mas o doutor também reparava nas pessoas que iam e vinham passeando na beira d’água: estrangeiros como ele, nativos de pele morena e outros turistas.

Viu quando se aproximou em sua direção um belo casal. Ele muito alto, magro, cabelos castanhos e crespos, ela mais baixa, cabelos claros e pele bronzeada do sol, de uma beleza radiante. Estranhamente o rapaz lhe pareceu conhecido. O doutor era um excelente fisionomista, mas não se lembrava de onde podia conhecer o jovem.

Esperou que eles passassem ao seu lado, falavam português, talvez com uma pontinha de sotaque francês... Bobagem, de onde poderia conhecer o homem? De repente se lembrou e virou-se rapidamente na direção dos dois para interpelá-los.

— Monsieur, s’il vous plaît! C’est possible que nous sommes connu? Vous être français?

— Oui, Bien sûr! Je suis français.

— Oh, mon Dieu! Je suis le docter qui a témoigné votre accident de voiture! Je suis heureux de vous voir bien! Phillippe Junot, enchanté!*— Apresentou-se o simpático senhor estendendo a mão.

— Léonard Férmont e ça c’est Larissa de Miranda — respondeu surpreso Léo.

— Enchanté, mademoiselle.

— Moi aussi, enchanté!

Conversaram em francês por mais alguns instantes, até o doutor ouvir a voz de Mireille, chamando-o para almoçar na grande choupana de madeira e palha ali na beira da praia. Peixe e aipim fritos, acompanhados de arroz e salada. Nada mais simples e delicioso por aquelas bandas.

— Mirreille m’appele pour le déjeuner! Bonjour mademoiselle, monsieur!**


(*— Senhor, por favor! Será possível que nos conheçamos? Você é francês? — Sim, é claro. Eu sou francês. — Oh meu Deus! Eu sou o médico que testemunhou seu acidente de carro! Estou feliz em lhe ver bem! Phillippe Junot, prazer!

**— Mireille me chama para o almoço! Bom dia senhorita, senhor!)


Despediu-se o doutor, abraçando o casal, feliz e alvissareiro como um menino. Tinha ganho o dia. Saber que o jovem que presenciara quase morrer estava saudável e feliz em terras brasileiras o deixou extremamente satisfeito. O acidente que presenciara há mais de dois anos mudou sua vida: aposentara-se, sempre que podia viajava, aproveitava com qualidade seus dias ao lado da mulher.

— Simpático o doutor. Como ele lhe reconheceu? Que coincidência encontrá-lo aqui!

Falou Larissa. Mas Léo não a ouviu, sentiu um mal estar, como se seu segredo houvesse sido revelado. O encontro com o doutor lembrou-o de quem realmente era. Em breve ele deveria partir, deixar para trás tudo e todos a quem amava, que para ele haviam se tornado seu maior tesouro.

Estava tão feliz, desejava ser para sempre um homem comum, um terráqueo. Não o era, e a verdade era como um aguilhão que fincava em sua lembrança. Sua vida era falsa, apenas um álibi, um disfarce bem elaborado.

Disse para Larissa que entraria no mar. Na verdade desejava morrer, se afogar para esquecer de sua injusta verdade. Mas como morrer no mar, se este mais parecia uma gigantesca piscina cor de jade, de água deliciosamente tépida?

Mergulhou várias vezes, para tentar afogar sua mágoa, sua dor de amar e mentir para sua amada. A dor abraçava-lhe o peito, espicaçava seu coração, ferroava sua garganta que teimava em calar um terrível segredo.

Não era mesmo uma loucura? Ele era humano e igual a todos. Sofreu um acidente, perdeu a memória e sofreu uma alucinação naquelas horas em que transitou entre a vida e a morte. Desejava que esta fosse a verdade, a única verdade!

Por quê? Por que sua mente insistia em lhe lembrar de um outro planeta, outros seres, outra família? Fazia tanto tempo que acordara para a vida neste planeta, que todo o passado ficou distante e parecia somente uma ilusão, uma loucura qualquer...

Léo pouco falou, e seu semblante antes leve tornou-se tenso e sério. Seus olhos cinza-esverdeados tornaram-se mais cinzentos e sombrios, mesmo diante do verde oceânico. Disse a Larissa que estava cansado. Outra mentira, para encobrir a mentira maior.



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