sábado, 10 de dezembro de 2011

Três tempos do amor entre casais



O amor tem muitas facetas, todas elas são amor, todas representam um aprendizado em direção ao amor maior, que não é só espiritual ou somente terreno - nem tanto ao céu, nem tanto à terra -, mas que é um pouco de tudo, enquanto somos criaturas encarnadas...

Existem três tempos ou movimentos do amor no relacionamento de casais, eles acontecem em momentos diferentes, e depois vão ocorrer simultâneamente, ao menos para os casais mais afortunados!

O primeiro momento é "Eros". Ah! Com quantos suspiros e devaneios nos brinda este momento! Eros é atração, é paixão, é fogo, é tesão! É o romance, o namoro, o flerte, a química da pele, a sedução, os jogos lúdicos do amor, o romantismo, as cartas e presentes de amor, os abraços, a troca de olhares, o carinho e a carícia, a dança, o eterno redescobrir do outro. Eros nos torna mais vivos, mais belos, inquietos, inspirados...

Eros faz parte não somente no relacionamento dos casais, mas também dos amigos, dos irmãos de alma, que juntos brincam, cantam, dançam e se divertem. Eros é devaneio, é alegria e também é inocência. Inocência de ser feliz, como as crianças, os sábios e os loucos sabem ser...

Cúpido é o nome latino para Eros, como o anjo que flecha e torna apaixonados suas vítimas, a paixão não tem hora para acontecer, mas tem suas finalidades, nos despertar para a inteireza, através de um mundo que deixamos de controlar, para descortinar novos aprendizados.

Eros nos presenteia com o desejo e o prazer, mas sem o devido "juízo" podemos nos perder e nos queimar dolorosamente nas ilusões do amor. Sem Eros aleijamos nossa vida e nossa plenitude, mas é preciso aprender e a compreender melhor esta etapa do amor, para não cair em armadilhas e transformarmos desejo em culpa, e prazer em dor.

Eros requer liberdade para existir, e assim cada um tem que respeitar a individualidade do outro para manter acesa a chama do desejo. Sem liberdade Eros é sufocado, e com ele o desejo e o prazer também. Assim casais apaixonados, ao se ter um dos parceiros fisgado pelo ciúme e possessão, acabam por matar Eros e o amor em seu relacionamento.

Nos relacionamentos duradouros Eros representa a eterna descoberta do outro, o romance que mantém vivo o amor, como em velhos casais que ainda sabem namorar e olhar apaixonadamente para o(a) companheiro(a), com desdém ao tempo que os uniu. Sem Eros a relação entra no conformismo e na rotina entediante capaz de destruir tantos casamentos. Com Eros vivo é sempre tempo de namorar, não importa o correr dos anos, então a brincadeira, o carinho, o elogio e o romantismo farão para sempre parte do relacionamento.

O segundo tempo do amor é o "sexo". Neste movimento nos despimos literalmente de nossas máscaras, revelamos nossos segredos e nos entregamos ao outro na totalidade, ou pelo menos deveria ser assim! O sexo na relação é como a argamassa que une os tijolos de uma construção, é o pão de cada dia, o feijão com arroz que sacia e alimenta. O sexo é a consumação e o êxtase do prazer que vai alimentar o amor na relação.

É o sexo que mantém a relação coesa, mas sozinho o sexo se esgota e a relação não mais se sustenta. É Eros que move o fole que sopra a brasa do desejo e do tesão que aquece o sexo, mas é "ágape" que vai dar continuidade a relação.

O terceiro movimento é "ágape", o amor verdadeiramente. Ágape é o amor em ação, são os muitos verbos de amar, é a parte mais árdua da relação. Ágape é cuidar, ter paciência, tolerância, perdoar, apoiar, chorar e se alegrar juntos, e todos os outros verbos que conhecemos tão bem, e que sustentam o casal nos momentos difíceis, e que fazem valer à pena amar...

Ágape é o trabalho diário, de sol a sol, ancinho e enxada na mão, a plantar, a cuidar, a colher, a saborear o fruto bem plantado do amor. É a construção do prédio, tijolo sobre tijolo, tudo bem planejado e aprumado. Serviço árduo, às vezes ingrato, e muitas vezes recompensado na satisfação íntima do trabalho bem feito e acabado!

Mas só o amor não sustenta a relação, e ficamos frustrados ao ver o outro partir, buscando por Eros - desejo e prazer -, ou pelo sexo - consumação e êxtase -, buscando por alguém que por fim o faça feliz, sem saber como, e, muitas vezes, sem saber o que lhe falta. O amor, por mais belo e cheio de renúncias não bastou.

Juntos, Eros, o sexo e ágape, tornam o relacionamento feliz e duradouro; quando em partes a relação fica insatisfatória. Penso que é esta insatisfação que faz com que um dos parceiros traia ou se apaixone por outra pessoa, mesmo quando existe o amor na relação.

Algumas pessoas não conseguem sair do movimento de Eros, ficam na fantasia da paixão, consomem o sexo, mas não toleram o trabalho de ágape. Ficam de paixão em paixão, sem criar verdadeiras raízes com ninguém. Outras pensam poder se saciar apenas com sexo e ágape, mas nunca estão verdadeiramente satisfeitas, desconhecem o lado mais doce, criativo e nutritivo do amor.

Mas talvez, em casos extremos, seja possível encontrar satisfação na relação com Eros e ágape. Este exemplo tiro das palavras de Betinho, hemofílico que contraiu aids em uma transfusão sanguínea, e que soube manter a relação com Eros e ágape, é claro que com o companheirismo e dedicação de sua esposa Maria. Ele fala: "Preferi a segurança total ao mínimo risco. Parei, paramos e com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da música, da boa comida, da literatura, da invenção, dos pequenos prazeres e da paz. Viver é muito mais que fazer sexo. Mas para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi."

E como é difícil ver realizado estes três movimentos em uma relação! Mas a incompletude do amor não representa o fim do amor, apenas a necessidade de crescer e se transformar. As falhas são humanas, e é a consciência de nossos desafios que nos faz ir adiante, em busca da completude e do amor.

Muitas vezes vivemos aos pedaços, somos retalhos de alma e vivemos o amor estrangulado, retalhado por nossa cultura, religião ou pelos padrões que trazemos. Mas o amor é ainda a porta estreita que nos leva a felicidade.

Cada movimento do amor alimenta e sustenta o seguinte, completam-se um ao outro, fazendo do amor uma sinfonia completa. Na medida em que crescemos espiritualmente sentimos a necessidade de criar relacionamentos completos e satisfatórios, e tomamos a necessária coragem para mudar, para seguir em frente, para perdoar as falhas nossas e do outro. Vamos tentar, arriscar sempre, pois estamos no longo aprendizado do amor.

Podemos nos lembrar que o outro na relação espelha nossas limitações, as falhas que viemos curar. Podemos também lembrar que um homem representa todos os homens de nossa vida, como também uma mulher representa todas as mulheres da vida de um homem - desta forma curar nosso relacionamento com aquele homem ou mulher que é nosso parceiro ou parceira, representa nossa cura em relação a todo masculino ou feminino da humanidade! Esta cura começa e termina com amor e perdão...

Ana Liliam

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