quarta-feira, 14 de março de 2012

Buda interior



 
 
Dentro de cada um de nós está um tesouro de ouro maciço. Essa essência áurea é o nosso espírito, puro e magnífico, aberto e fulgurante. Mas esse ouro foi recoberto por uma dura carapaça de argila. A argila surgiu do nosso medo. É a nossa máscara social: a face que mostramos ao mundo. Revelar sua sombra deixa à mostra sua máscara. Precisamos olhar para essa máscara com amor e piedade porque é muito importante compreender o que está escondido atrás dela.


Muitos historiadores acreditam que o Buda foi coberto de argila pelos monges tailandeses havia centenas de anos, antes de um ataque do exército birmanês. Eles cobriram o Buda para evitar que ele fosse roubado. No ataque, todos os monges foram mortos; assim, só em 1957, quando estavam transportando a estátua gigantesca para outro lugar, é que os encarregados da mudança descobriram o tesouro. Como o Buda, nosso arcabouço nos protege contra o mundo: o nosso tesouro real está escondido lá dentro. Nós, seres humanos, inconscientemente escondemos nosso interior dourado sob uma carapaça de argila. Tudo o que precisamos fazer para descobrir esse ouro é ter coragem para retirar a camada que recobre nosso exterior, pedaço por pedaço.

Em meus seminários, costumo trabalhar com pessoas que investiram anos seguidos em terapia.  Todas me fazem a mesma pergunta: “Quando isso vai acabar? Quando estarei curado? Quanto tempo ainda terei de trabalhar esses problemas que voltam vezes e vezes sem fim?” Essas pessoas não estão se olhando como magníficos Budas envoltos por uma carapaça de argila. Elas odeiam sua carapaça. Não descobriram que essas crostas de argila as protegem muito mais do que imaginam. Precisamos das carapaças por diversos motivos, e para cada um de nós as razões são diferentes. Mesmo que o nosso objetivo final seja deixar cair nossas máscaras, necessitamos, antes, entendê-las e fazer as pazes com elas. Você acha que, depois que os monges retiraram a crosta de argila do Buda Dourado, ele disse: “Odiei aquela carapaça horrenda?” Ou acredita que o Buda abençoou aquilo que evitara que ele fosse roubado e levado para longe de casa?.

Quando eu era mais jovem, minha carapaça exterior era a minha forma de agir, mostrando-me agressiva, malcuidada e insensível. Ao dizer “fui feita assim”, escondia meus sentimentos de inadequação e dava a mim mesma a ilusão de que eu estava bem. À medida que fui desfazendo minha carapaça, pedaço por pedaço, a minha essência brilhante começou a surgir. Mas só consegui ver além do meu exterior rude quando pude distinguir aqueles aspectos que formavam minha carapaça e que serviam de disfarce para minhas emoções escondidas. Uma vez tendo começado a enxergar entre as rachaduras, fui capaz de deixar cair a carapaça. E quando aprendi a valorizar e a respeitar essa dura carapaça por ter me protegido, minha vida se transformou.

Nossa carapaça exterior é que enfrenta o mundo, escondendo as características que constituem sua sombra. Nossas sombras são tão bem disfarçadas que, muitas vezes, mostramos uma face para o mundo quando, de fato, é o extremo oposto que realmente está dentro de nós. Algumas pessoas usam uma camada de agressividade, que esconde sua sensibilidade, ou uma máscara de humor, para cobrir sua tristeza. As pessoas que “sabem tudo” normalmente estão disfarçando o fato de se sentirem burras, enquanto que as que agem com arrogância precisam ainda revelar sua insegurança. A pessoa gentil, esconde o canalha dentro de si, e a sorridente oculta a irritada. Precisamos olhar além de nossas máscaras sociais para descobrir nosso eu autêntico. Somos mestres do disfarce, enganamos os outros, mas nos enganando também. São as mentiras que contamos a nós mesmos que temos que decifrar. Quando nunca nos sentimos completamente satisfeitos, contentes, saudáveis ou realizando nossos sonhos, é porque essas mentiras estão no nosso caminho. É assim que reconhecemos nossa sombra, quando a trabalhamos.

A mudança requerida é relativa à percepção. Você precisa encarar sua carapaça exterior como algo que lhe serviu de proteção, não apenas como alguma coisa que o impediu de realizar seus sonhos. Sua carapaça exterior é divinamente projetada para orientar seu processo espiritual. Ao revisitar e explorar cada incidente, cada emoção e cada experiência que o levaram a construir essa carapaça, você será guiado de volta ao lar para incorporar a totalidade do seu ser. Nossas carapaças são o guia do nosso crescimento pessoal. São feitas de tudo aquilo que somos e daquilo que não queremos ser. Não importa o quanto seja doloroso o seu passado ou o seu presente; se olhar verdadeiramente para você mesmo e usar a informação armazenada em sua carapaça exterior como um guia, isso o encaminhará em sua jornada para o esclarecimento.

Quando você descobrir a totalidade do seu ser, não precisará mais da carapaça para protegê-lo. Deixará que suas máscaras caiam naturalmente, expondo seu verdadeiro eu para o mundo. Não precisará fingir que é superior ou inferior a qualquer outra pessoa. Todos no mundo são iguais a você. Criamos nossas carapaças a partir do nosso ego ideal. O ego é o “Eu” distinto do outro. O espírito agrupa o “eu” e o outro num só. Quando ocorre essa união entre o espírito e o eu, tornamo-nos unos em relação a nós mesmos e ao mundo. A maioria das pessoas não vão muito longe no processo de revelar sua sombra porque não querem ser honestas consigo mesmas. O ego não gosta de perder o controle. No momento em que você toma conhecimento de todos os seus próprios aspectos, os bons e os maus, o ego começa a sentir uma perda de poder.No The Tibetan Book of Living and Dying, Sogyal Rinpoche explica que: 


          ”O ego é nossa identidade falsa e inconscientemente assumida. Assim, o ego é a ausência do verdadeiro conhecimento de quem somos de fato, junto com o seu resultado: a condenação de ficar presos, a qualquer custo, a uma imagem substituta e remendada de nós mesmos, um inevitável eu camaleônico e charlatão que está sempre mudando e que precisa fazer isso para manter viva a ilusão de sua existência."


do livro:O LADO SOMBRIO DOS BUSCADORES DA LUZ - Debbie Ford

enviado por Leise

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