segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Amor e meditação


 
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por Ana Paula Padrão

O amor se apresenta em muitas formas. Inclusive para os que, como eu,
sempre tiveram medo dele.

Não acredito e não confio. É da minha natureza nunca abdicar do raciocínio e preservar emoções para raríssimos momentos de relaxamento. Sou fraca. Freud explica: Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada! O amor não está no meu alicerce emocional. Tudo que sei sobre ele fui aprendendo ao longo da vida. Conheci muitos que amaram incondicionalmente. Eles conhecem o amor, têm com ele um grau invejável de intimidade. Comigo sempre foi muito mais difícil.

Eu deveria acreditar em alguma coisa maior que nos guia na tarefa da entrega ao amor. Mas minha fé no ser humano é comedida. Reticente. O outro trai. O outro é fraco. O outro, como nós, resvalará na avareza e, ainda que por amor, será egoísta. É da natureza humana. E entregar nossas réstias de dignidade a quem, um dia, nos apunhalará pelas costas é para poucos. E bons. Era assim que eu pensava. Ainda hoje sinto frio, muito frio, quando a lógica me diz que a única maneira de executar uma tarefa é entregar meu coração – e principalmente minha mente – inteiramente a ela. Assim como no mercado financeiro, sigo a regra da diversificação.

Por isso comecei a ficar gelada assim que cheguei lá. Era um dia de temperatura baixa em São Paulo. Mas nada que justificasse aquela sensação de pés congelando, aquela umidade invadindo meus ossos, me impedindo de não pensar. Era um curso de meditação. Tudo que eu tinha que fazer era não pensar. E eu só conseguia pensar. Naquele frio absurdo, naquele incômodo, naquele desconforto. Quero minha cama quentinha! 

Fracasso total. Saí do primeiro dia de aula fria e incrédula. Dura. Decorei todas as técnicas. Primeiro exercícios físicos e de respiração compassada. Depois exercícios de visualização que empurram a agenda de compromissos e a lista de supermercado para fora da sua cabeça. Mas decorar não é sentir. E eu não senti nada. Só o frio. E ainda teria que voltar no dia seguinte. Era um curso de fim de semana.

Dormi bem naquela noite, no entanto. Meu marido me diz que até ronquei. Foi por ele que concordei com as aulas. Meu marido sabe amar. Foi com ele que entendi que o amor existe. E que é poderoso e transformador. O que, de alguma maneira, me salvou da solidão de ser apenas eu mesma a vida inteira, o que teria sido terrivelmente aborrecido.

Por isso voltei à aula no outro dia. Os mesmos alunos estavam lá, cheios de esperança. E eu parecendo uma esquimó, coberta de casacos e de medo. A técnica de meditação foi desenvolvida por uma grande guru indiana, considerada uma deusa viva. Ela se chama Amma, que significa mãe, em sânscrito. Tem milhões de seguidores que creem no poder do amor puro. Ela os abraça e eles choram, impregnados de amor. E eu, a pragmática, ali, deslocada. E foi quando se deu o parêntese na minha mediocridade.

Nesse segundo dia me concentrei no método. Respirei como a sequência de exercícios indicava. Me entreguei à técnica e confiei nela. Esqueci da fé e me agarrei ao que me era familiar. A disciplina. E minhas próprias barreiras me levaram a um estado de concentração profundo. Pude sentir cada etapa acontecendo no meu corpo, meus pés formigando e se aquecendo, minha mente livre de qualquer pensamento que não estivesse ligado ao agora. Será que isso é meditar?, pensei eu ao fim das quatro horas desse segundo dia. Me olhei no espelho. Estava serena, limpa, tranquila.

Voltei para casa e tomei uma taça de vinho, o que é definitivamente não recomendável. Amma há de me perdoar. Eu tinha que comemorar minha pequena vitória em direção ao equilíbrio. Um equilíbrio precário, mas que se parece comigo. E se há algo que desejo muito é ficar cada vez mais parecida comigo. Só que melhor. Essa Amma deve ser uma mulher muito esperta. Sabe que o amor se apresenta em muitas formas. Inclusive para os que, como eu, sempre tiveram medo dele.
enviado por Viviane

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