segunda-feira, 6 de maio de 2013

“Todos querem viver por muito tempo, mas ninguém quer envelhecer”



  “Todos querem viver por muito tempo, mas ninguém quer envelhecer”

A frase é de Benjamin Franklin e foi escrita há pelo menos 200 anos, quando a expectativa de vida era bem menor do que hoje. O que diria este cientista se vivesse em nossa época?

Ter medo de ficar velho passa a ser contraditório, já que o medo de não envelhecer é ainda maior, em um mundo que tem a violência como um de seus principais problemas. Atingir a terceira idade é uma recompensa, quando se podem colher os frutos das realizações que são adquiridos em fases anteriores da vida. E é só envelhecendo que se aprende a envelhecer.

Já deu para perceber que o tema desta matéria é um tanto conflitante, não?

De acordo com a antropóloga Mirian Goldenberg, a mulher brasileira tem muita dificuldade para envelhecer. “Nossa cultura valoriza muito um modelo de mulher jovem, o que difere bastante das mulheres alemãs, objeto, também, de minha pesquisa”.

Após uma série de pesquisas com mulheres na faixa de 40 e 50 anos, Mirian irá lançar, este ano, pela editora Record, um livro sobre a velhice em que faz uma   comparação entre  o comportamento das diversas culturas sobre esse tema que chega a ser um tabu para determinadas pessoas. Estará, também, no Midrash, no dia 24 de junho, com a palestra “Corpo como capital na cultura brasileira”, quando debaterá questões sobre os diversos tipos de relacionamentos.

Mas enquanto o livro não chega às livrarias e aguardamos pela palestra, vamos conhecer um pouco desse trabalho da antropóloga, na entrevista a seguir.

.O que mais chamou atenção em sua pesquisa com mulheres a partir dos 40 anos?

-As questões que mais preocupam as brasileiras são a decadência do corpo e os homens. O corpo aparece de duas maneiras: problemas de saúde como artrites e dores na coluna e, especialmente, com relação à aparência. Essas mulheres não são mais jovens e raramente são magras, ficando longe do padrão valorizado – o que constitui um problema. Em relação aos homens, as solteiras ou separadas queixam-se das mesmas coisas das de 30 ou 40 anos: a dificuldade de encontrar parceiro. Dizem que os interessantes estão casados. As casadas queixam-se das faltas de seus maridos – falta de sexo, de companheirismo ou de dinheiro.

.E as mulheres de 50, 60 e 70 anos, o que pensam?

-Essas mulheres de 60, 70 anos aprendem a ver o todo, e não o detalhe. Estão mais felizes, valorizam mais a liberdade do que o corpo; mais a saúde do que a aparência; mais as amizades do que os homens.

.E o homem, também tem medo de envelhecer assim como a mulher?

-O homem não se preocupa tanto em envelhecer ou com a aparência, isto porque, estatisticamente, ele morre mais cedo do que a mulher. O que observamos no homem é um movimento, depois de sua aposentadoria, de volta para a família. Eles sentem mais necessidade da vida familiar e este convívio passa ser muito valorizado.

.Falamos nas preocupações das mulheres acima de 40 anos. O que se passa na cabeça das mulheres mais jovens, de 20, 30 anos, em relação ao envelhecimento?


- Estas são as que mais sofrem e têm medo  do envelhecimento, são as que mais reclamam do corpo e dos homens. Ficam com fixação na ruguinha, no cabelo branco, na celulite...

.Isto é um problema cultural? 

-Sim, um problema da nossa cultura, que diz para as nossas mulheres que se elas não tiverem um homem, se elas não estiverem jovens, se elas não forem sexy, se elas não forem magras, se elas não tiverem filho, elas não têm valor nenhum.

.Você também fez uma pesquisa com mulheres em outros países. Como encaram o envelhecimento e os relacionamentos?

- Eu passei três meses na Alemanha e na Espanha, dando conferências, aulas e fazendo entrevistas sobre as concepções de corpo e envelhecimento. Percebi que lá, envelhecer tem outros significados, e muito positivos, desde que você tenha saúde e qualidade de vida. Nesses dois países, para as mulheres entre 50 e 60 anos, envelhecer é algo muito positivo, associado à maturidade, realização profissional, sucesso etc
Tenho uma aluna aqui no Brasil que fez uma pesquisa com mulheres que não pintam o cabelo. Quando mencionei isso lá na Alemanha, elas ficaram surpresas porque a maioria das alemãs não pinta o cabelo e se fossem fazer uma pesquisa fariam justamente o contrário, ou seja, com mulheres que pintam o cabelo. Acho que esse exemplo é muito significativo em termos de valores.

.Isto não poderia ser visto como falta de vaidade da mulher alemã?


-Não, porque elas são vaidosas, só que de outra forma. Elas se preocupam mais com a casa, com a saúde e com o estilo de vida que levam.

.Como a mulher lida com a sexualidade ao envelhecer? 

– A mulher mais velha não gosta do tratamento de “senhora” e também o fato de não serem mais paqueradas na rua. Elas gostariam de continuar a ser chamadas de “gostosa”, sentem falta de os homens não olharem mais para seus corpos. Essas mulheres continuam querendo ser desejadas – mais até do que desejam o sexo em si. Isso vale tanto para as solteiras quanto para as casadas. Foi interessante observar que algumas mulheres disseram que se sentem mais livres sem um homem, por não terem que satisfazer o desejo masculino. Disseram estar cansadas de fazer sexo, que com a idade vem também a libertação dessa obrigação.

Qual é a importância do casamento na vida dessa mulher? 

– Eu criei o conceito de “capital marital” ao descobrir que ter um marido é considerado um verdadeiro bem para as mulheres de mais de 50. As casadas sentem-se duplamente poderosas: primeiro, por ter um marido num mercado em que ele é cada vez mais raro. Segundo, porque acreditam que o marido depende delas, afetiva e psicologicamente. É algo que as faz sentir importantes. Numa cultura como a brasileira, em que o valor feminino está atrelado à figura masculina, num universo em que a mais importante forma de reconhecimento é ser desejada por um homem, “o marido” é um capital extremamente valorizado, e a prova definitiva do sucesso feminino. Sua ausência é vista pela maioria como fracasso. Mesmo que o casamento, na prática, não seja feliz. 

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