quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Efeito do sono para o cérebro

Sabemos por experiência própria que o sono não é apenas "o outro" estado de funcionamento do cérebro, mas uma necessidade básica para que o cérebro trabalhe direito enquanto acordado. 

Não dormir o suficiente traz fadiga mental, más decisões, dificuldade de aprendizado e risco aumentado de crises de enxaqueca e epilepsia --e a insônia completa e crônica ainda é capaz de levar humanos, camundongos e até mesmo moscas à morte. 

Por que o funcionamento normal do cérebro depende de sono e deteriora quanto mais tempo se passa acordado? A neurociência tem uma forte candidata a resposta, vinda do laboratório de Maiken Nedergaard, nos EUA: o sono seria necessário para que metabólitos (quer dizer, produtos do metabolismo normal do cérebro) potencialmente tóxicos sejam eliminados do cérebro. 

O interesse inicial da equipe de Maiken Nedergaard era estudar o espaço intersticial do cérebro: o volume situado do lado de fora das células, por onde circula o líquido que banha as células e "lava" embora tudo aquilo que elas excretam, inclusive os tais metabólitos. Para estudar o espaço intersticial, a equipe injetava um corante que se espalhava por esse espaço no cérebro de camundongos acordados sob o microscópio.
O experimento devia ser um tanto monótono para os animais, pois estes acabavam adormecendo. Foi o que levou à descoberta: para a surpresa dos pesquisadores, o cérebro adormecido parecia ter uma torneira aberta de corante, que agora se espalhava rapidamente pelo espaço intersticial. 

Investigando o fenômeno inesperado, a equipe demonstrou que a circulação de líquido pelo espaço intersticial é mínima no cérebro acordado, quando o espaço intersticial é reduzido. Mas a transição para o sono leva a uma expansão de 60% desse espaço, o que aumenta enormemente a circulação de líquido.
Na prática, o resultado é que a remoção de toxinas produzidas pelo funcionamento das células essencialmente só ocorre durante o sono; no cérebro acordado, com pouca circulação de líquido, elas vão se acumulando. 

É fácil pensar em como o cérebro, acordado, deve ficar gradualmente prejudicado conforme se acumulam os produtos tóxicos do seu próprio funcionamento. Dormir parece ser a solução para o problema: um estado transitório, mas obrigatório, repetido todos os dias após um certo número de horas acordado. E que deixa o cérebro pronto para começar tudo de novo...

Suzana Herculano-Houzel, carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha, e professora da UFRJ.

enviado por Maria Teresa

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails