quinta-feira, 27 de novembro de 2014

As Portas da Liberação, Thich N. Hanh


“... Usualmente, por causa da nossa ignorância e energias de hábito, percebemos as coisas incorretamente. Somos detidos em nossas categorias mentais, especialmente em nossas noções de eu, pessoa, ser vivente, e extensão de vida. Fazemos discriminação entre o eu e o não-eu, como se o eu não tivesse nada a ver com o não-eu. Cuidamos do bem estar, mas não pensamos muito sobre o bem estar de tudo que seja não-eu. Quando vemos as coisas desse jeito, nosso comportamento está baseado em percepções equivocadas. Nossa mente é como uma espada cortando a realidade em pedaços. E então agimos como se cada pedaço da realidade fosse independente dos outros pedaços. Se observarmos profundamente, removeremos essas barreiras entre nossas categorias mentais e veremos o um no muito e o muito no um, que é a verdadeira natureza da inter-existência. Esta é a forma de ficarmos livres de nossos conceitos. É por isso que no Sutra do Diamante Buda usa a linguagem da liberdade quando responde a seu discípulo Subhuti. Encontramos muitas sentenças como esta do Sutra do Diamante. “O bodhisattva não é bodhisattva por isso é um verdadeiro bodhisattva”. Esse modo de falar é chamado de dialética da Prajñaparamita. Ele nos é ofertado por Buda para nos libertarmos de nossas noções.

Vamos tentar compreender a dialética da Prajñaparamita: Uma taça não é uma taça, portanto, é verdadeiramente uma taça. Um eu não é um eu, por isso ele pode ser verdadeiramente um eu. Quando olhamos para dentro de “A”, a coisa que estamos observando_ uma taça, um eu, uma montanha, um governo_ vemos nela os elementos “não-A”, portanto podemos dizer que “A” é “não-A” ou que “A” não é “A”. Pai é feito de elementos não-pai, inclusive os filhos. Se não há filhos, como pode haver um pai? Observando profundamente um pai, vemos os filhos, esposa, marido, cidadão, presidente, todos os demais e todas as coisas.

Na lógica, o princípio de identidade é que “A” é “A” e que “A” nunca pode ser “B”. Para nos libertarmos dos nossos conceitos, temos de transcender esse princípio. O primeiro princípio da dialética da Prajñaparamita é que “A” é “não A”. O bem-estar do homem depende do bem-estar dos elementos não-homem na natureza. Quando você tem a percepção correta do homem e sabe que ele é feito de elementos não-homem, você pode chama-lo pelos seus verdadeiros nomes_árvore, mulher, peixe ou homem. Buda deveria ser visto da mesma forma. Buda é feito de elementos não-Buda. A iluminação é feita de elementos não-iluminação. O Dharma é feito de elementos não-dharma. Os bodhisattvas são feitos de elementos não-bodhisattva. Declarações deste tipo constam no Sutra do Diamante e elas são o caminho para a prática da segunda porta da liberação, a porta do não-sinal.

Se aprendermos sobre as três portas da liberação, mas não as praticamos, elas não têm muita utilidade. Para abrir a porta do não-sinal e entrar no reino da realidade tal qual ela é, temos de praticar a mente alerta em nossa vida diária. Observando atentamente todas as coisas, enxergamos a natureza da inter-existência. Vemos que o presidente de nosso país é composto de elementos não-presidente, inclusive economistas, políticos, ódio, violência, amor etc. Observando atentamente uma pessoa que seja presidente, vemos a realidade de nosso país e do mundo. Nela podemos encontrar tudo que concerne à nossa civilização. Uma coisa contém todas as outras coisas. Merecemos o nosso governo e o nosso presidente porque ambos refletem a realidade do nosso país_ a forma como pensamos e sentimos, e a maneira como levamos a nossa vida diária. Quando sabemos que “A” não é “A”, quando sabemos que nosso presidente não é nosso presidente, que ele é “nós mesmos”, não mais o censuramos ou culpamos. Sabendo que ele é feito apenas de elementos não-presidente, saberemos onde aplicar nossa energia para melhorar nosso governo e nosso presidente. Temos de cuidar dos elementos não- presidente e dos elementos não-governo dentro e fora de nós. Não é uma questão de debate. É uma questão de prática.

“Um lugar onde alguma coisa pode ser distinguida por sinais, neste lugar há decepção”. Subitamente esta sentença do Sutra do Diamante se torna clara. Enquanto não olharmos a realidade profundamente e descobrirmos qual é a sua verdadeira natureza, seremos enganados por sinais ou noções. Quando enxergarmos a natureza não-sinal dos sinais, vemos Buda. Depois de ver a verdadeira natureza de “A”_ que não é “não-A ”_ nós tocamos a realidade de “A”.

Texto extraído do livro: Cultivando a Mente do Amor, de Thich N. Hanh.


Enviado por Leise


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