domingo, 29 de junho de 2014

O futebol como religião secular



Leonardo Boff, teólogo e escritor

A presente Copa Mundial de Futebol que ora se realiza no Brasil, bem como outros grandes eventos futebolísticos, assumem características, próprias das religiões. Para milhões de pessoas o futebol, o esporte que possivelmente mais mobiliza no mundo, ocupou o lugar que comumente detinha a religião. Estudiosos da religião, somente para citar dois importantes como Emile Durkheim e Lucien Goldmann, sustentam que “a religião não é um sistema de idéias; é antes um sistema de forças que mobilizam as pessoas até levá-las à mais alta exaltação”(Durckheim). A fé vem sempre acoplada à religião. Esse mesmo clássico afirma em seu famoso “As formas elementares da vida religiosa: ”A fé é antes de tudo calor, vida, entusiasmo, exaltação de toda a atividade mental, transporte do indivíduo para além de si mesmo”(p.607). E conclui Lucien Goldamnn, sociólogo da religião e marxista pascalino:”crer é apostar que a vida e a história tem sentido; o absurdo existe mas ele não prevalece”.

Ora, se bem reparmos o futebol para muita gente preenche as características religiosas: fé, entusiasmo, calor, exaltação, um campo de força e uma permanente aposta de que seu time vai triunfar.

A espetacularização da abertura dos jogos lembra uma grande celebração religiosa, carregada de reverência, respeito, silêncio, seguido de ruidoso aplauso e gritos de entusiasmo. Ritualizações sofisticadas, com músicas e encenações das várias culturas presentes no país, apresentação de símbolos do futebol (estandartes e bandeiras), especialmente a taça que funciona como um verdadeiro cálice sagrado, um santo Graal buscado por todos. E há, valha o respeito, a bola que funciona como uma espécie de hóstia que é comungada por todos.

No futebol como na religião, tomemos a católica como referência, existem os onze apóstolos (Judas não conta) que são os onze jogadores, enviados para representar o país; os santos referenciais como Pelé, Garrincha, Beckenbauer e outros; existe outrossim um Papa que é o presidente da Fifa, dotado de poderes quase infalíveis. Vem cercado de cardeais que constituem a comissão técnica responsável pelo evento. Seguem os arcebispos e bispos que são os coordenadores nacionais da Copa. Em seguida aparece a casta sacerdotal dos treinadores, estes portadores de especial poder sacramental de colocar, confirmar e tirar jogadores. Depois emergem os diáconos que formam o corpo dos juízes, mestres-teólogos da ortodoxia, vale dizer, das regras do jogo e que fazem o trabalho concreto da condução da partida. Por fim vem os coroinhas, os bandeirinhas que ajudam os diáconos.

O desenrolar de uma partida suscita fenômenos que ocorrem também na religião: gritam-se jaculatórias (bordões), chora-se de comoção, fazem-se rezas, promessas divinas (o Felipe Scolari, treinador brasileiro, cumpriu a promessa de andar a pé uns vinte km até o santuário de Nossa Senhora do Caravaggio em Farroupilha caso vencesse a Copa como de fato venceu), figas e outros símbolos da diversidade religiosa brasileira. Santos fortes, orixás e energias do axé são aí evocadas e invocadas.

Existe até uma Santa Inquisição, o corpo técnico, cuja missão é zelar pela ortodoxia, dirimir conflitos de interpretação e eventualmente processar e punir jodadores e até times inteiros.

Como nas religiões e igrejas existem ordens e congregações religiosas, assim há as “torcidas organizadas”. Elas tem seus ritos, seus cânticos e sua ética.

Há famílias inteiras que escolhem morar perto do Clube do time que funciona como uma verdadeira igreja, onde os fiéis se encontram e comungam seus sonhos. Tatuam o corpo com os símbolos do time; a criança nem acaba de nascer que a porta da encubadora já vem ornada com os símbolos do time, quer dizer, recebe já ai o batismo que jamais deve ser traido.

Considero razoável entender a fé como a formulou o grande filósofo e matemático cristão Blaise Pascal, como uma aposta: se aposta que Deus existe tem tudo a ganhar; se de fato não existe, não tem nada a perder. Então é melhor apostar de que exista. O torcedor vive de apostas (cuja expressão maior é a loteria esportiva) de que a sorte beneficiará o time ou de que algo, no último minuto do jogo, tudo pode virar e, por fim, ganhar por mais forte que for o adversário. Como na religião há pessoas referenciais, da mesma forma vale para os craques.

Na religião existe a doença do fanatismo, da intolerância e da violência contra outra expressão religiosa; o mesmo ocorre no futebol: grupos de um time agridem outros do time concorrente. Ônibus são apedrejados. E pode ocorrer verdadeiros crimes, de todos conhecidos, que torcidas organizadas e de fanáticos que podem ferir e até matar adversários de outro time concorrente.

Para muitos, o futebol virou uma cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida. Alguns são sofredores quando seu time perde e eufóricos quando ganha .

Eu pessoalmente aprecio o futebol por uma simples razão: portador de quatro próteses nos joelhos e nos fêmures, jamais teria condições de fazer aquelas corridas e de levar aqueles trancos e quedas. Fazem o que jamais poderia fazer, sem cair aos pedaços. Há jogadores que são geniais artistas de criatividade e habilidade. Não sem razão, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger, não perdia um jogo importante, pois via, no futebol a concretização de sua filosofia: a contenda entre o Ser e o ente, se enfrentando, se negando, se compondo e constituindo o imprevisível jogo da vida, que todos jogamos.

Do livro: Depois de 500 anos, que Brasil queremos?
Vozes 2000.

terça-feira, 24 de junho de 2014

A CONEXÃO LIBERTADORA

Eckhart Tolle

Existe uma Vida Única, eterna e sempre presente, além das inúmeras formas de vida sujeitas ao nascimento e à morte. Muitas pessoas empregam a palavra Deus para descrevê-la, outras costumam chamá-la de Ser.

Costumo utilizar a palavra “Ser”, pois, tem a vantagem de sugerir um conceito aberto. Não reduz o invisível infinito a uma entidade finita. É impossível formar uma imagem mental a esse respeito. Ninguém pode reivindicar a posse exclusiva do Ser. É a sua essência, tão acessível como sentir a sua própria presença. Portanto, a distância é muito curta entre a palavra “Ser” e a vivência do Ser.

O Ser não está apenas além, mas também dentro de todas as formas, como a mais profunda, invisível e indestrutível essência interior. Isso significa que ele está ao seu alcance agora, sob a forma de um eu interior mais profundo, que é a verdadeira natureza dentro de você. Mas não procure apreendê-lo com a mente. Não tente entendê-lo.

Só é possível conhecê-lo quando a mente está serena. Se estiver alerta, com toda a sua atenção voltada para o Agora, você até poderá sentir o Ser, mas jamais conseguirá compreendê-lo mentalmente.
Recuperar a consciência do Ser e submeter-se a esse estado de “percepção dos sentidos” é o que se chama iluminação.

A palavra iluminação transmite a ideia de uma conquista sobre-humana – e isso agrada ao ego -, mas é simplesmente o estado natural de sentir-se em unidade com o Ser. E um estado de conexão com algo imensurável e indestrutível. Pode parecer um paradoxo, mas esse “algo” é essencialmente você e, ao mesmo tempo, é muito maior do que você. A iluminação consiste em encontrar a verdadeira natureza por trás do nome e da forma.

A incapacidade de sentir essa conexão dá origem a uma ilusão de separação, tanto de você mesmo quanto do mundo ao redor. Quando você se percebe, consciente ou inconscientemente, como um fragmento isolado, o medo e os conflitos internos e externos tomam conta da sua vida.

O maior obstáculo para vivenciar essa realidade é a identificação com a mente, o que faz com que estejamos sempre pensando em alguma coisa. Ser incapaz de parar de pensar é uma aflição terrível, mas ninguém percebe porque quase todos nós sofremos disso e, então, consideramos uma coisa normal. O ruído mental incessante nos impede de encontrar a área de serenidade interior, que é inseparável do Ser. Isso faz com que a mente crie um falso eu interior que projeta uma sombra de medo e sofrimento sobre nós.

A identificação com a mente cria uma tela opaca de conceitos, rótulos, imagens, palavras, julgamentos e definições, que bloqueia todas as relações verdadeiras.

Essa tela se situa entre você e o seu eu interior, entre você e o próximo, entre você e a natureza, entre você e Deus. É essa tela de pensamentos que cria uma ilusão de separação, uma ilusão de que existem você e um “outro” totalmente à parte. Esquecemos o fato essencial de que, debaixo do nível das aparências físicas, formamos uma unidade com tudo aquilo que é.

Se for usada corretamente, a mente é um instrumento magnífico.

Entretanto, quando a usamos de forma errada, ela se torna destrutiva. Para ser ainda mais preciso, não é você que usa a sua mente de forma errada. Em geral, você simplesmente não usa a mente. É ela que usa você. Essa é a doença. Você acredita que é a sua mente. Eis aí o delírio. O instrumento se apossou de você.
É quase como se algo nos dominasse sem termos consciência disso e passássemos a viver como se fôssemos a entidade dominadora.

A liberdade começa quando você percebe que não é a entidade dominadora, o pensador. Saber disso permite observar a entidade. No momento em que você começa a observar o pensador, ativa um nível mais alto de consciência.

Começa a perceber, então, que existe uma vasta área de inteligência além do pensamento e que este é apenas um aspecto diminuto da inteligência.

Percebe também que todas as coisas realmente importantes, como a beleza, o amor, a criatividade, a alegria e a paz interior, surgem de um ponto além da mente. Você começa a acordar. 

enviado por Régis

domingo, 8 de junho de 2014

Huberto Rohden – Livro COSMOTERAPIA - 1989


Quando o homem se convence de que Deus (ATMA) é a Lei, Lei Única e Universal, que opera com infalível precisão e absoluto impersonalismo – então conquista ele uma posição segura, que o fará compreender o princípio da cosmoterapia.

Milhares de homens piedosos pensam que Deus tenha os seus favoritos, aos quais concede graças especiais, enquanto outros, não favorecidos, ficam esquecidos ou menos agraciados.

A diferença não vem da Lei – a diferença vem unicamente da ATITUDE que o homem assume em face da Lei. Uma plantinha no fundo dum subterrâneo não recebe os benefícios da irradiação solar, ao passo que outra planta, na superfície da terra, é beneficiada – mas a diferença não vem do Sol, e sim, da atitude diversa das duas plantas.

Quando um sábio abre a chave da luz elétrica acende-se a lâmpada – e a mesma luz também se acende quando um ignorante abre a chave.

Quando um santo aperta o botão do elevador, este sobe e pára no respectivo andar do edifício – e a mesmíssima coisa acontece quando um pecador aperta o botão.

O princípio da luz e força está na usina – e é aplicado tanto por sábios e santos como por ignorantes e celerados.

Quando um doente cristão, de qualquer Igreja ou seita, liga sua consciência individual com a Consciência Universal, recebe saúde – e quando um pagão, um judeu, um muçulmano estabelecem o mesmo contacto entre sua consciência individual e a Consciência Universal, recebem saúde.

A Lei Universal atua universalmente – basta que o indivíduo preencha certas condições para pôr em ação a Lei Universal.

Na natureza infra-humana, essas condições estão automaticamente preenchidas pelo instinto infalível, e por isso a Lei Universal não pode deixar de funcionar.

No homem, porém, a linha única da natureza se bifurcou em duas linhas, o estado neutro se converteu em positivo e negativo; o ser hominal, graças ao seu livre-arbítrio, pode harmonizar e pode não-harmonizar com a Lei Universal. É este o privilégio e o perigo do livre-arbítrio.

O homem pode estabelecer contacto com a Usina da Vida e Saúde – e pode também estabelecer descontato. Quando o homem estabelece contacto consciente e livre com a Fonte da Vida e Saúde, recebe luz, força e movimento – quando estabelece descontato, não recebe luz, força, nem movimento.

O homem-ego, nesta primeira fase, ainda imperfeita da sua humanidade, pode estabelecer esse contato com a Usina ou Fonte do Bem. E como o ego é visceralmente separatista, egocêntrico, a atitude comum do homem-ego é esse separatismo.

Dizemos “separatismo”, e não separação, para indicar que esse estado do ego é uma criação subjetiva, meramente ilusória, mas que o homem-ego considera como sendo a Verdade.

A VERDADE É UNIÃO.

A ILUSÃO O SEPARATISMO.

DA VERDADE VEM O BEM, A VIDA, A SAÚDE.

DA ILUSÃO VEM O MAL, A MORTE, A DOENÇA.

A doença nasce, pois, da ilusão do separatismo – e, enquanto persistir no homem essa ilusão, não pode haver uma cura radical, embora o ego possa tentar remover os sintomas do mal.

O homem-ego possui uma semi-consciência da Verdade, que o torna capaz de ilusão separatista, e da consequente doença – mas não possui a plena-consciência da Verdade, pela qual seria ele capaz de abolir a doença.

“Conheceis a Verdade, e a Verdade vos libertará” – nestas palavras de (Cristo-Budha Maytreia) o maior curador de todos os tempos vem enunciado o princípio básico de toda a terapia. Vida e saúde são compatíveis com a Verdade – e são incompatíveis com a ilusão.

A ilusão nos sujeita aos males.

A Verdade nos redime dos males.

“Eu e a Fonte somos um; a Fonte está em mim, e eu estou na Fonte” – quem é capaz de conscientizar intensamente esta verdade se liberta de todos os males, porque na Fonte não há males; e a conscientização “A FONTE ESTÁ EM MIM” faz fluir o conteúdo da Fonte através dos canais conscientizantes.

A semi-consciência do ego é uma intermitência de luz e trevas – mas a pleni-consciência do EU (Maior) é uma permanência de luz sem treva.

“O HOMEM É ASSIM COMO ELE PENSA EM SEU CORAÇÃO” – estas palavras da Sagrada Escritura definem exatamente a origem do bem e do mal: a vida do homem é o resultado dos seus pensamentos habituais, sobretudo quando esses pensamentos são “DO SEU CORAÇÃO”, isto é, onerados de emotividade, positiva ou negativa; quem pensa com temores em doença, cedo ou tarde ficará doente; quem pensar com amor em saúde, terá saúde.

O EU pleni-consciente afirma REALIDADE, VIDA, SAÚDE, PROSPERIDADE.

O ego semi-consciente oscila entre afirmação e negação, ora afirmando facticidade positiva (saúde), ora afirmando factividades negativas (doenças).

A estabilização definitiva da consciência na verdade redime o homem da oscilação instável entre luz e treva, verdade e ilusão, saúde e doença, firmando-o somente na saúde. Afirmar é firmar e confirmar.

“EU AFIRMO A SOBERANIA DO MEU EU DIVINO SOBRE TODAS AS TIRANIAS DOS MEUS EGOS HUMANOS”.

“EU JÁ VENCI O MUNDO”.

enviado por Régis
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